10.05.2008

Os teus sentidos em mim

Nós temos cinco sentidos: são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?

David Mourão-Ferreira



O sabor dos teus lábios? Ópio absíntico
O cheiro da tua pele? um insenso fecundo. Antigo
O teu som? Mar. Revolto
O teu toque? Asas de serpente curvilínea
O teu olhar? um quadro vivo
Onde tudo mora
Onde tudo acaba

10.04.2008

Dúvida... Certeza

Terror de te querer tanto ou de nunca te vir a conhecer...


Algures, numa barragem onde libertei uma música de água.
Aprisionada em mim. Onde sempre estivera. Sem nunca o saber.

10.03.2008

The Jazmin River



Don't be afraid
Open your mouth and say
Say what your soul sings to you

Your mind can never change
Unless you ask it to
Lovingly re-arrange
The thoughts that make you blue
The things that bring you down
Only do harm to you
And so make your choice joy
The joy belongs to you

And when you do
You'll find the one you love is you
You'll find you
Love you

Don't be ashamed no
To open your heart and pray
Say what your soul sings to you

So no longer pretend
That you can't feel it near
That tickle on your hand
That tingle in your ear
Oh ask it anything
Because it loves you dear
It's your most precious king
If only you could hear

And when you do
You'll find the one you need is you
You'll find you
Love you

Massive Attack, What your soul sings

10.02.2008

Mulheres em 20 questões

Assinale com verdadeiro e falso as seguintes questões.


1. É verdade que se as mulheres fossem à tropa as botas passariam a ser Pablo Fuster e teriam de existir acessórios a condizer.

2. É mentira que a razão de existirem 7 mulheres para 1 homem seja os 6 terem ido comprar tabaco ou passear o cão e o que fica seja descendente do Ghandi ou vendedor da Clinic.

3. É verdade que, actualmente, a história da Cinderela seria um completo flop: nenhuma mulher estaria na disposição de abdicar de um sapato, acredita minimamente em príncipes ou aceitaria recolher a casa antes das 0h00.

4. É mentira que as mulheres se atrasem. São apenas coerentes.

5. É verdade que as mulheres não estão a aderir aos carros sem chave. É que perde toda a piada prescindir do único conhecimento mecânico quando têm de o levar à oficina.

6. É mentira que Mulheres “à beira” de um ataque de nervos seja um filme Nortenho.

7. É verdade que uma das poucas razões para que o vibrador ainda não substitua a classe masculina é ainda não despejar o lixo.

8. É mentira que as mulheres sejam friorentas. Brrrrrrrr Avança lá rápido para o próximo ponto e não puxes a “mantinha” que já estou com os pés gelados.

9. É verdade que todas as mulheres da minha geração se recordem do Top Gun, tenham lido a Bravo, tido um crush pelo Bon Jovi ou dançado com as músicas do Flash Dance ou Dirty Dancing.

10. É mentira que quando Deus criou a mulher a cobra se tenha pirado com receio de virar Kelly Bag.

11. É verdade que para as mulheres o dinheiro não traz felicidade. Tal é manifestamente comprovado pela necessidade de ir às compras para o gastar de imediato.

12. É mentira que uma mulher consiga estar 2 horas ao telefone com uma amiga e tenha de voltar a ligar-lhe por se ter esquecido do que queria perguntar. Também existem os SMS’s.

13. É verdade que para as mulheres, melhor que um banho quente de imersãoé um banho quente de imersão com espuma. E melhor que ambos é um banho quente de imersão com espuma e com um “telefonezito” nas redondezas. O patinho amarelo é um opcional.

14. É mentira que a maior tentação feminina seja o chocolate. Também existem os bombons, as trufas, o bolo de chocolate, os brigadeiros, o gelado de chocolate, os M&M’s e as smarties. E por certo mais...

15. É verdade que a moda só foi inventada para as mulheres repararem umas nas outras, se andassem nuas teriam apenas de se contentar em reparar nos penteados, o que é manifestamente insuficiente.

16. É mentira que “não existem mulheres feias mas sim homens sem imaginação”. Qualquer homem sem imaginação estaria simplesmente lixado e não teria tempo para tais questões filosóficas.

17. É verdade que para as mulheres o anticontraceptivo mais fiável é, de longe, a enxaqueca.

18. É mentira que os anjos não tenham sexo por Deus Nosso Senhor ter querido evitar a licença de parto e foi a forma politicamente correcta que encontrou para o fazer.

19. É verdade, que o top de vendas para as mulheres na Divanni & Divanni, seja o sofá com pack manta, chocolate e filme do George Cloney.

20. É mentira que não possamos viver sem as mulheres. Mas seria sem dúvida uma vivência muito mais cinzenta e sem sal.

Os resultados da prova serão enviados oportunamente. Boa sorte.

PS: Não foi de todo intenção dos autores da prova ferir quaiquer susceptibilidades ou tecer quaisquer comentários pseudo-machistas, pelo que se apresentam as desculpas se tal se verificar (este parágrafo justifica-se, ou não estivessemos a falar de Mulheres) :)

10.01.2008

Inside





Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David Mourão-Ferreira

Arquitectura #3

Luz invadido os poros do respirar arejado do espaço.
Simplicidade branca e o calor dum pequeno apontamento.


[Loft em Miami]

9.30.2008

Testamento

Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá do fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho.

António Lobo Antunes

9.29.2008

Aperto de mão

- Muito prazer: Opus Day
- O prazer é todo meu: Copus Night


Confesso andar sem pachorra nenhuma para determinados empertigamentos, totalmente desnecessários e descabidos, levando a algumas respostas politicamente menos correctas não descozendo o tom sério e tranquilo.

9.28.2008

Newman's Own

“Perdi um verdadeiro amigo. Minha vida e este país são melhores porque ele esteve em ambos" [Robert Redford]

"Estabeleceu um padrão demasiado alto para o resto - não apenas para os actores, mas para todos". [George Clooney]


O mundo cinéfilo ficou mais pobre. Perdeu azul. Perdeu causas e generosidade para lá de fama ou protagonismo. Perdeu uma estátua grega contemporânea. Perdeu um cavalheiro e um filantropo. Perdeu humildade. Mas ganhou um exemplo. Para recordar.

Boas corridas Paul
e um obrigado.

Mar de caricias




O decantar de um vinho
O ritual dos gestos
O corpo a levitar

O estalar do fogo
O escuro á escuta
O sangue

O sussurro da noite
O beijo sôfrego
O arrepio

O entrelaçar das mãos
O interior dos frutos
O sismo húmido

Um mar de carícias
Desaguando em ti

9.27.2008

Arquitectura #2

Mago da conjugação de materiais num imprevisível
mas perfeito chic delicado e funcional.


[Decoração by Phillipp Stark]


9.26.2008

Tema recorrente

O mundo torna-se diferente se olhado com banda sonora.
Diferente. Para melhor.



Cálidas imagens acenam brilhos escondidos. Resguardados do rebuliço apressado dos dias. Protegendo-se da ferrugem do tempo. Camuflados. Mas sempre presentes. Num objecto. Num gesto. Num cansaço ou olhar. Com tanto sentido e doutra forma esquecidos, à morte.

Nascentes secretas brotando sereias de luz. Ávidas de sussurros, que invadem a pele em ondas mornas. Planando aos ouvidos. Tocando fundo em gotas densas interiores.


9.24.2008

Boa mesa

Nunca tivera medo de facas. Sempre alertam para as facas - “Cuidado para não te cortares”. As facas perdem assim muito da sua imprevisibilidade e consequente perigo.

As colheres, por seu lado, dispersam a realidade em formas curvas e côncavas, o que tem a sua sensualidade e utilidade, no conforto de não permanecer demasiado tempo nessa realidade enfadonha. Mas não representam perigo algum, também.

O verdadeiro perigo reside nos garfos. Forquilhas impotentes duma fome, por vezes, impossível de saciar.

9.23.2008

Os amantes

Começa o mar a castigar-te os flancos e a resumir, em poucos minutos, uma sonâmbula evolução de muitos milénios, convertendo em pedra o que era peixe, desfazendo em areia o que foi pedra, incorporando cada vez mais pó no volume das suas águas... Passam entretanto pelo céu nocturno cavalgadas de nuvens magnéticas; entre as estrelas mais longínquas estabelecem-se pactos efémeros; e morrem aves nos pântanos da Lua, sob a luz que da Terra lhe enviamos. Não sei se principias a gemer, se é lenha mais alto a crepitar. Luzes, Luzes! Luzes soltas no meio da escuridão... Instala-se o firmamento nas tuas entranhas. O êmbolo do vento acelera-te o ritmo. O teu último gemido, nem o consegues dominar: derrapou no pavor de ser um grito, suicida-se na curva do meu ombro. E finalmente deito-me a teu lado. Não sei se bem se a teu lado se dentro de ti.



David Mourão-Ferreira


Curioso, o sonho do mar a percorrer essa rocha delicada dos teus ombros...

9.22.2008

Cerejas nos teus lábios

Dizem que as conversas são como as cerejas.
Sempre as vi, no entanto, em ti mais caladas.
Nos teus lábios. À espera dos meus.

9.21.2008

Olhares

Quem não compreende um olhar, tão pouco compreenderá uma longa explicação.

Mário Quintana


E assim se saboreou um bom vinho tinto*. Na lenta e sábia dança dos olhares. Cumplices mensageiros, para lá das palavras.

Maria João Pires



Para guardar na memória o concerto* do CCB, provando que há coisas que com a idade roçam a perfeição



* de Bethovenn (apesar do vídeo ser de Chopin)

9.20.2008

Sorriso assassino

A praça estava cheia. Vestida numa dança de sentidos, cores vivas, sons e movimento. E ela gostava daquela sensação que não sabia explicar completamente. Uma espécie de encenação do destino dos homens nas mãos dos deuses. Sob o seu olhar atento. O confronto da vida e da morte desafiando-se na arena, assim como na vida. O cheiro a terra, o calor do sangue, o eco dos aplausos.

Também ela, se sentira observada na noite anterior. Num arrepio sensual inexplicável. Num perverso adiar do prazer duma forma distante, mas tão presente ao mesmo tempo. A segurança da atenção envolta dum certo mistério não revelado.

A fiesta fazia-a oscilar entre a vida e as suas viagens interiores duma forma quase subconsciente. Não se revia na palidez dos cinzas, nos meios termos ou nos “assim assim”. Gostava de uma vida condimentada e era frontal. Quase transparente. Sentia demasiadamente as coisas. Talvez fosse isso. E não gostava de as aprisionar. Preferia solta-las como um levantar de pássaro. Um ímpeto que cada vez mais tentava controlar, por alguns dissabores. Causados por alguma falta de preparação do mundo para a verdade.

Aquela dança sensual, e ao mesmo tempo arriscada, entre a capa vermelha, rodopiando, e o touro imponente, investindo incansável era como uma metáfora da sua luta interior. A mulher fatal, quase assassina, e menina que não queria crescer. O medo da solidão e a impossibilidade de tudo. O vermelho da paixão, o negro do desconhecido, num perverso jogo, que lhe cativava o olhar e acelerava a pulsação.

Preferia o risco do sofrimento a uma vivência vegetal. Sem sede ou sabor. E ali percorria esses pensamentos naquela dança. Sem saber como ou quando apaixonara-se pela paixão, mais que pelas pessoas. E ficava, por vezes profundamente despida. Frágil, como um cálice deixado na praia. Talvez pela estúpida contradição de se saber capaz de tudo por essa paixão apesar da consciência da sua morte inevitável. Pré-anunciada. Apenas sem data marcada.

A paixão fazia parte de si, corria-lhe nas veias como um veleiro silencioso. Numa sede de abismo ao ponto de ter dias em que se julgava enlouquecer. De lhe apetecer largar tudo. Fugir. Saltar para aquela arena e evaporar-se num sopro. Que mesmo comprimido entre a espada e o touro não libertaria um único palavrão. Apenas um sorriso.


Para uma menina com um brilho especial, algures entre o sorriso e a lâmina mais assassina. Apesar de não gostar de touradas :)

Assíduos do shaker

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