7.11.2008

Comunicado

Sob pena de passar a imagem de embriaguez quero arriscar referir que dos poucos políticos nacionais que ainda reconheço valor, responsabilidade, profundidade e pertinência nas observações e análises (e ainda me dão gosto ouvir) são o Medina Carreira e Silva Lopes. Pena que não tenhemos jornalistas à sua altura.

7.10.2008

Folha escrita e amarrotada

Eu sou a folha escrita e amarrotada
Esquecida algures
Num cume invisível à vista.
Numa cadeira vazia. Inodora
Uma folha escrita não muito longa
Concisa de palavras
Arejada de espaços
Que silêncios existem
mais sonoros que todas as sílabas vivas
Uma folha de caligrafia fina
Lavrando fundas sementeiras de palavras
que brotam como frutos nos lábios
Eu sou a folha escrita e amarrotada
que se solta e rodopia ao vento
descansando presa nas janelas
ganhando fôlego numa mão perdida
que dedilha uma frase
saboreia uma imagem
para logo se lhe escapar
em lágrima ou sorriso.
Eu sou a folha escrita e amarrotada
Cansada e gasta pelo tempo
sem se deixar secar.
Molhada de chuva e reflexos de mar
Até que um dia
Se a encontrarem
Talvez seja tarde
Pois as palavras também morrem
E as folhas querem-se lisas e paradas

7.09.2008

Gravatas tristes

Fui abordado há uns tempos por uma menina de uma loja, que já se tinha metido comigo uma vez, ao que lhe retorqui com uma seriedade simpática, dizendo algo subtil sobre as gravatas que ela estava a arrumar. Esta semana, passado já não sei quanto tempo, voltei à referida loja e não é que a mesma menina me perguntou descaradamente quando é que me decido a comprar-lhe uma gravata? Perguntei-lhe se a causa de tal observação era achar feias as que usava. Ao que ela respondeu. Não. São muito bonitas até, mas é que são tristes. Sorri e prometi voltar, quem sabe, para que me escolha uma alegre. Mas fiquei a magicar naquilo. Confesso sou muito esquisito nas gravatas mas será que tenho mesmo gravatas tristes ou terá sido apenas técnica de boa vendedora?

7.08.2008

Close your eyes

Anyone whos ever had a heart
Wouldnt turn around and break it
And anyone whos ever played a part
Wouldnt turn around and hate it
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Youre waiting for Jimmy down in the alley
Waiting there for him to come back home
Waiting down on the corner
And thinking of ways to get back home
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Anyone whos ever had a dream
Anyone whos ever played a part
Anyone whos ever been lonely
And anyone whos ever split apart
Sweet Jane, sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile
Heavenly widened roses
Seem to whisper to me when you smile

Sweet Jane
Sweet, sweet Jane

Cowboy Junkies, Sweet Jane

7.07.2008

Preguiça dourada em lume brando

O peso dos ponteiros sobre os ombros nus. Empurrando-o para aquele estado embevecido. Algures entre um sono manso e um olho aberto no corpo imóvel. Despercebido do mundo. Despercebido de tudo. Um espreguiçar na areia quente. Um escorregar do tempo no esquecimento. Pelas ampulhetas sem vidro das suas mãos remexendo passados e futuros sem dar qualquer passo. Sem nada querer ou fazer. Apenas permanecendo. Ali. É complexo, permanecer. Uma eternidade da qual pouco se repara. A primeira e última resistência – o permanecer. Eis que surge uma pequena tentativa de movimento. Quase um esgar. Uma ameaça. Mas não. Ainda é cedo. Mais um pouco deste revirar em lençol de seda. Mais um afago de almofada. Um adiar de realidade. Mais este queimar de pôr de sol, ainda desfocando a vista numa dança dourada de fogo. Os segundos soando numa brasa sem chama. Quente. Irresistível. Um bocejar que se prolonga na pele. Um dia que acaba sem começar. Permaneço. Permaneço. E nada me move. Nada me seduz. Nada brilha mais que esta luz.

Capítulo Segundo: Preguiça (aqui publicado) e Inveja em Andromeda-News

7.06.2008

Remington

O barulho metálico das teclas ecoava no escuro. Percorrendo o vácuo infinito, prisioneiro da geometria da sala. O ritmo veloz da escrita a galopar. Cascos de sílex. Letra a letra. Num deserto nocturno. Guiado por estrelas ao vento. Fazendo festas nas paredes porosas. Libertando-lhes histórias, ali depositadas. Regressando saciado. Entregando-as ao corpo. À frescura da pele nua num ténue calor. Uma garrafa por companhia. Aberta em tempos que não recordava. Transparente. Ao contrário do que escrevia. O álcool a alastrar, lentamente, nas veias. Suave veneno adormecendo sentidos. Despertando outros, numa espécie de poesia. Num rio que avança violento. Despertando ramos e folhas presas nas margens do ser. A garrafa a descer. O branco da folha a subir. Como que acenando paz daquela guerra. O escuro a apoderar-se de tudo. Contrariado apenas pela fresta de lua, brilhando através do vidro da garrafa. Mostrando criaturas desconhecidas. Habitantes apenas visíveis ao passar pelo vidro. Revelando-se subtilmente. De novo os sons de prata. De beleza ímpar. Invisíveis ao olhar. A garrafa já vazia. Folhas amarrotadas cobrindo o chão. Finalmente o sono percorrendo o rosto com a sua mão fria. Num jogo de sedução adiado ao limite. Adormeceu com o barulho dum beijo no escuro, perto daquela velha máquina que dá pelo nome de escrever.

7.04.2008

Old Jag

Não sou daqueles maluquinhos por carros, nem chegou ainda a crise da meia idade para querer o Porche. No entanto devido ao facto de ter quebrado (tristemente) a chama pelo Bentley Continental (por razões já descritas) decidi encontrar e formalizar ao mundo um substituto apenas com o cuidado de não ser atractivo aos jogadores de futebol e se possível (please!!!) a nenhum “espécimen” como o anterior (ainda não me saiu da cabeça, estão a ver o trauma). Pois bem, sem ter pensado muito no tema (pois há coisas muito mais interessantes para me debruçar), e com mais duas ou três hipóteses perfeitamente plausíveis (da mesma época), pode ser, deixem ver, um E-Type Jag de 1961. Está dito.

7.02.2008

Paquete estrelado

Este espaço vai mudar de porto. Anda demasiado “lamechas”, não tem um único palavrão e não contem palavras difíceis de pronunciar ou suficientemente eruditas. Promete-se que serão banidas quaisquer lamechices otorrinolaringológicas e permitidos os mais hediondos vernáculos vicentinos. Informa-se que serão permitidas a bordo desde marinheiras Gaultier a Estrelas de Cannes (não de Hollywood) dispensando-se apenas Provedores ou Edites. All aboard.

7.01.2008

A planície do esquecimento

Lembro-me menos de mim antes de ti. Mas também lembro o que não existiria se não houvesse um nós.


Esquece-me. Dissera-lhe. Carinhosamente, sabia-o. Pois não lho dissera nos olhos e as palavras têm essa faceta escorregadia – a de poderem tornar a mais desnudada e polida das estátuas numa pedra áspera, seca – quando desprovidas dum olhar. Esquece-me. É melhor para ambos. Como se houvesse bem ou mal nesses estranhos acasos. Como se fosse possível esquecer o som do mar. Um cheiro. Uma expressão que assentou no respirar. Que lhe pedia? Que apagasse parte de si? Que se partisse em menos um pedaço? Que escurecesse um recanto íntimo? Que secasse aquele fruto sumarento? Que lhe pedia? Como se fosse possível separar uma imagem dum livro que se conhece de cor. Que se percorreu vezes sem conta. Tocando-o com a mão. Na textura tépida do papel. Sabia partir como as aves. Separar momentos e lugares das vontades mais vorazes. Mais demoníacas. Por mais que custassem. Por mais que doessem ao ouvido. Sabia até abdicar do todo para manter parte. Ínfima que fosse. Por mais que gostasse há coisas que não conseguia fazer. Que não lho podiam pedir. Era esse o seu estranho dom. O de perder tudo menos a memória. Tudo menos o esquecimento.

6.29.2008

Quem era eu antes de mim?

Às vezes. Muito às vezes há um estranho reflexo nas águas e um som com esta pergunta. Que era eu antes de mim?


Após leitura de Lilaz da violeta

6.28.2008

Casamento

Mais um casamento. Mais banalidades. Mais conversas de circunstância. Mais caras familiares cada vez mais distantes. Quase estranhas. Diluídas entre sedas, jóias e fatos escuros. Mais um casamento. Mais do mesmo. Mais do enfadonho jogo social de politicamente correctos. Mais etiquetas insuportavelmente encenadas e notórias faltas de chá. Mais caras bonitas que nada me dizem. Mais falta de vontade de conhece-las. Mais uma pessoa que diz que me conhece. Mais a certeza que muito poucos verdadeiramente me conhecem. Mais uma resposta que gera um silêncio. Inoportuna. Propositada, talvez. Mais uns olhares que não sinto falta. Mais uma notícia que me deixa perplexamente preocupado ou um pouco magoado. Mais a certeza que sou mesmo parvo. Mais um puro na pureza da noite. Mais a certeza que comer é um acto pré-histórico. Mais um casamento. Mais subtis momentos despercebidos que ainda são a razão da minha presença. Mais um respeito pelos noivos. Por acreditarem. Por nada mais. Mais um casamento. Mais uma esperança sincera que resulte. Que valha a pena.

6.26.2008

Silêncio alerta

O silêncio é um espião

Mário Quintana


Quero todo o silêncio do mundo. Todo. E mais algum. O das profundezas oceânicas e o da lua. O do cume e o do deserto. O da noite fria. O da madrugada. Quero todo o silêncio do mundo. O interior. O dos objectos. O do monumento antigo. O das pálpebras fechadas. O mais subtil dos silêncios. Quero respira-lo como ópio. Quero-o nas veias. Nos lábios. A levitar nos meus gestos como ramos. Suspenso. Atento. Alerta.

6.25.2008

Luxúria em seda fuchsia

Egoísta salgado
Só o prazer te corrói
a pele árida
gritando deleite

Demónio insaciável
Combustão fluorescente
que vai lavrando em
uivo lascivo

A carne é fraca
E o prazer uma serpente
Esquiva
Crescente

Maça violada
ou lacrada
Ferida de acesso
Tumulto abrupto

Subtil deslizar
de seda fuchsia
nas estradas curvas
da tentação

Egoísta salgado
És torpor, gemido
Absinto
e alucinação

Escuta bem minha voz
Pois estarei contigo
Lenta ou veloz
Tua fiel inimiga


Capítulo Primeiro: Luxúria (aqui publicado) e Ira em Andrómeda-News

6.24.2008

Os 7 pecados mortais

São sete transgressões
Sete tentações
Sete perversões
Em sete estações

São sete manuscritos
Sete discursos ditos
Sete estados de pecar
Que nos iremos debruçar

Desafio lançado por Andromeda

6.22.2008

Fotografia daquele jardim

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.


Sophia de Mello Breyner Andersen

Assíduos do shaker

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