6.10.2008

A beleza e o desastre

A beleza num pano ou na parede pode comover mais que a beleza num rosto. A beleza não é quantificada pelas narinas, apenas pelos olhos e, no caso da música, pelos ouvidos. Embora no caso da música a beleza dependa também das imagens que vemos quando ouvimos algo. Mas também da pintura poderás dizer que tem a sua parte auditiva: quais os sons que ouves quando vez um quadro?
Se colocares datas na beleza e no desastre verás que, por vezes, estranhamente, a grande beleza surge depois do grande desastre. Mas o mais comum é o inverso.



Gonçalo M. Tavares

6.09.2008

Percepções

Percebemos que andamos com pouco tempo livre quando se acumulam três edições do Jornal Expresso, duas da revista Blue Travel e uma da Visão sem abrir uma única página. Percebemos que andamos a dormir pouco quando se tenta entrar no metro com o cartão da Fast Galp. Percebemos finalmente que muito provavelmente (para não dizer com toda a certeza) tais factos não interessam rigorosamente a ninguém a não ser, talvez, para notar que existirão coisas bem mais interessantes para percepcionar.

6.08.2008

101

Água Lua Deserto Noite Mar Sonho Sombra Alga Fogo Gesto Pele Mão Coração Cor Silêncio Abraço Torpor Arrepio Paixão Livro Saber Mistério Sentir Acaso Atento Sinal Gato Ponte Música Arte Antigo Memória Fundo Momento Viagem Dar Escutar Cozinhar Emoção Liberdade Respeito Impossível Abismo Beijo Anémona Spa Design Sentidos Pecado Raízes Alma Nada Tudo Levitar Amigo Distante Azul Tempo Lareira Babilónia Jacarandá Lenda Piano Magia Escrita Sangue Lágrima Caminho Dúvida Chuva Cal Cálice Inquietação Invisível Cumplicidade Sim Paz Especiaria Sorriso Feminino Sedução Sopro Sussurro Cacto Tigre Clássico Contemporâneo Seda Anjo Jardim Musa Demónios Fruto Imaginação Novelo Teia Janela Perdido Búzio Quimono Magnólia

* Desafio lançado por Andromeda sobre 101 palavras
com que me identifico de alguma forma.
Está aberto o desafio

6.07.2008

Os troncos das árvores

Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.

Sophia de Mello Breyner Andresen

6.06.2008

Still have the music


Leonard Cohen, Chelsea Hotel

I need you... I don't need you…
You need me... You don't need me…
But we still have the music

6.05.2008

Um dia

Um dia morreremos, e isso nada importa, pois tudo terá sempre um fim para nos lembrar certos momentos. Um dia esqueceremos tudo e todos, e isso já importa muito, pois deveríamos poder levar alguns desses momentos para além de nós. Um dia talvez renasçamos, mas isso nada importa, pois de que vale começar do nada? Um dia conseguiremos dar forma a este desejo de barro molhado à espera das nossas mãos, e isso importa, pois rara e fugaz é esta dança que vimos brilhar nos olhos fechados. Um dia se deparou diante de nós, estremecendo tudo em redor, por uma qualquer razão, ainda por decifrar. Ali permanece, expectante, sem dormir. De mãos estendidas só para nós. Um dia saberemos, pois um dia esse dia vai finalmente agarrar-nos. Um dia. Verás.

6.04.2008

The Bill Gates Sindrome

Detesto estereótipos e generalizações fáceis. Sou até apologista de não haver, normalmente, regra sem excepção e que, muitas vezes, “nem tudo o que parece é” ou “tudo o que parece mesmo certo não o é definitivamente”. No entanto, descobri recentemente uma possível falha a esta teoria prendendo-se com os Informáticos. Sim, essa classe maravilhosa tão injustamente incompreendida. Passo a explicar.

Todos os informáticos têm borbulhas na cara e usam (quase sempre, pronto) óculos, fruto, porventura, das excessivas radiações de fósforo verde a que estiveram submetidos nas caves antes do aparecimento dos actuais TFT’s ou por insistência dos mais puristas. Aparentam ter muito menos idade (sendo talvez interessante para a industria cosmética, se nos abstrairmos das referidas borbulhas) parecendo quase sempre meros adolescentes. Tem aspecto de tocarem mais em teclados que em mulheres, é verdade (se calhar esqueçam a da industria cosmética) e (desculpem-me lá esta) de serem grandes consumidores de sites pornográficos. Têm mais medo de gravatas que o Diabo da Cruz e quando as usam há grande probabilidade de ser conjugada com um bonito blusão de cabedal.

Ou seja, vestem-se de uma maneira inconfundível (como se tivessem uma farda invisível que dissesse “Sim sim sou um informático”). Outra particularidade, irritante (por sinal), é a de receberem frequentes contactos telefónicos solicitando pareceres de novos equipamentos ou para "sacar" jogos piratas da net, aos quais respondem, quase sempre, com a linguagem indecifrável do próprio computador (pelo menos ao comum dos mortais já que do outro lado se encontra, normalmente, lá está, outro informático).

Curioso. Não me recordo de ver um informático acompanhado de um não informático ou munido de outro objecto que não uma mala preta à tiracolo. Estou provavelmente a ser injusto, sendo apenas consequência de uma nova má experiência com um iluminado "Help Desk" com que me tenho relacionado ultimamente, apresentando desde já as minhas desculpas, mas digam-me lá por favor, as meninas (inclusive as informáticas) por exemplo, o que pensam? Existirá excepção a esta regra? Ou é o sindrome Bill Gates?

6.03.2008

Aquisição


My Kitchen, Wok
Wok, My Kitchen

Espero que o vapor forme bastantes núvens interiores se possível sem grandes tempestades.

6.02.2008

Moda Lisboa

Posso dizer que hoje me sinto envolvido num denso manto de perplexidade quanto à noção de “bom gosto”. Bem sei que gostos não se discutem mas nunca tinha sentido na pele a estranha sensação de um “extremo mau gosto” (na minha modesta opinião) afectar os meus gostos, ao ponto de me levar a pensar que certas coisas simplesmente deveriam ser proibidas. Sim. Leram bem. Proibidas. Querem ver?

Passo a detalhar:


  1. Caneta no bolso da camisa

  2. Aberta até ao umbigo (importante detalhe de abotoar apenas o último botão e ter um fio ao pescoço com o que me pareceu um corno)

  3. Pé de gesso (leia-se meia branca)

  4. Unha preponderante no mindinho (poupo-vos pormenores)

  5. Telemóvel ao coldre (com o respectivo toque estúpido e ensurdecedor)

  6. Calças vermelhas (mais vivas que as capas de tourear)

  7. Conjugação de cores surrealista (de ofuscar qualquer arco-íris)

  8. Devem estar a pensar: mas eu já vi isto. Pois, acredito, mas... (e é aqui que reside a diferença)

  9. O “espécimen” apresenta-se num Bentley Continental azul escuro, estacionado ao meu lado, no parque de estacionamento do Chiado.

Três conclusões:

  1. Já posso morrer tranquilo por termos uma alternativa à altura do John Galliano

  2. Desculpa lá Bentley mas perdemos definitivamente a chama. Já não bastavam os jogadores de futebol?

  3. Obrigado Senhor por, apesar de agnóstico, me teres brindado com a noção das prioridades. Não me venhas agora lançar dúvidas quanto ao bom gosto. Pode ser? Eu não o discuto mas mantém, pelo menos, uma certa coerência.

6.01.2008

Ancorado em ti

Aqui me encontro com esta saudade salgada dum ainda nada que é já tanto. Nesta espessa maresia aguardando os teus dedos de praia secreta. Por descobrir. Esperando um sol que me envolve. Que me percorre. Aqui me encontro neste mar revolto em que um dia ancorei à espera dos teus lábios de veleiro. Que sempre soube a caminho. Que sempre nos levam para águas distantes. Esquecidas deste mundo. Onde nadamos envoltos como algas. Juntos. Vestidos de peixes. Despidos de tudo. Águas onde só chega quem não teme tempestades. Onde só chega quem não teme perder-se. Onde só chega quem não teme dar à costa. Nesta praia deserta que é a tua espera.


5.31.2008

Princípios


Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.


Nuno Júdice

5.28.2008

Gatos em 20 questões

Assinale com verdadeiro e falso as seguintes questões.


1. É verdade que o cão só é o melhor amigo do Homem porque não existe gato com pachorra para essa vida de cão.

2. É mentira que os gatos estejam uma vida a pagar a casa. Toda a gente sabe que estão pelo menos sete na casa dos donos.

3. É verdade que a Cat Woman (Michelle Pfiffer) é bastante mais interessante que qualquer dos Batmans.

4. É mentira que o Gato das botas não conheça a Pablo Fuster.

5. É verdade que gatos preferem qualquer acorde do Love Cat’s dos The Cure a todas as músicas do Cat Stevens.

6. É mentira que o carteiro toque sempre 2 vezes. Ele mia quando é para a Mia Farrow ou para a Mia Sorvino.

7. É verdade que o peixe gato foi uma exigência do sindicato dos peixes por estarem fartos de ser comidos.

8. É mentira que gato escaldado de água fria tem medo. É bastante compreensível que prefiram um jacuzzi a um banho frio.

9. É verdade que a Gata Borralheira adoraria ter uma máquina da Nespresso. É horrível um café com borras.

10. É mentira que os gatos só lhes deixem cortar as unhas sob coação de os levarem à Nails4’us.

11. É verdade que uma mulher verdadeiramente prudente e visionária quando diz “aquele tipo é um gato” já meditou suficientemente no eterno problema de poder vir a pingar constantemente o tampo do WC.

12. É mentira que quem não tem cão caça com gato. Desde quando um gato acata uma ordem?

13. É verdade que uma Piiriquita (com “e”) só é mais interessante que um Gatão (sem “ão”) enologamente falando.

14. É mentira que o Garfield e a Hello Kity tenham um caso. Isso seria Gatofilia e ao que consta não existe no dicionário.

15. É verdade que se reencarnasse gostava de regressar gato e bastante vádio.

16. É mentira que sempre me ocorreu que quando um gato sobe a uma árvore e é preciso chamar os bombeiros ele deve querer que a velhinha tente subir a árvore.

17. É verdade que uma das melhores palavras que se consegue aproximar (ainda que muito longe) da subtileza de um gato é “Entrepara”.

18. É mentira que à noite todos os gatos são pardos. Consta que foi apenas manias do Leopardo.

19. É verdade que existe uma menina muito felina e com requintes de malvadez interessantes que dá pelo nome de Miau.

20. É mentira que o Emir Kusturica tenha gatos romenos com dentes de ouro.


Os resultados da prova serão enviados oportunamente. Boa sorte.

5.27.2008

Um obrigado

O cinema ficou mais pobre, Sidney. Será que escolheste aquela árvore perdida na extensa planície, onde os leões se vêm deitar e o tempo passa. Devagar.


Sidney Pollack (1934:2008)

5.26.2008

Orient Express

A nossa distância é um comboio na escuridão. Caminhando sem se ver mas percorrendo-nos os sentidos. Sentes o terpidar? O barulho dos carris a passar? Os segundos metálicos? O respirar? É um comboio antigo. Forjado à mão com a lava mais quente dos Deuses. Escurecido pelo passar das noites calmas e o cair das folhas. Seguido pela lua e por esta música de ave a migrar. É um comboio com sangue de vida. Ferido, talvez. Um cavalo selvagem sem rédeas. Negro. Que galopa sem descanso. Um comboio com a paz e o calor do deserto. Sem bilhete. Sem ida nem volta mas já com data marcada.

5.25.2008

Afirmativo consensual

Detesto escutar as conversas dos outros mas há pessoas, que a julgar pelo volume com que falam ao telemóvel, devem adorar que os ouçamos. Normalmente entra a 100 e sai a 200 mas esta conversa (de apenas um dos interlocutores) aguçou a minha curiosidade para tema tão consensual.


- Sim?
- Sim Sim
- Pois
- Sim
- Exactamente
- Sim Sim
- Sim Sim Sim
- Ok
- Afirmativo


Hummm. Que seria?

5.24.2008

Antes e depois

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

Mário Quintana

5.22.2008

Some things...



I wouldn't shut your eyes just yet
I wouldn't turn the lights down yet
'Cos there's things you've gotta see here
There's things you've gotta believe of me

I wouldn't turn the sound down yet
Don't even touch the dials, not yet
'Cos there's things you've gotta hear here
There's things you've gotta believe of me

I wouldn't say a word just yet
Don't even open your mouth, not yet
'Cos there's things I've gotta say here
There's things you wanna hear from me

Tindersticks, El Diablo en el ojo

5.21.2008

La Fontaine

Um homem cruzou-se com um animal e leu-lhe três fábulas para o ensinar.
Mais tarde um animal cruzou-se com um homem e deu-lhe três dentadas para o ensinar.
Mais tarde a Natureza inteira cruzou-se com o homem e com o animal e enterrou-os com três pazadas de terra para os ensinar.




Francisco M. Tavares

Assíduos do shaker

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