5.11.2008

Inesperado

P: Qual a morte preferível a todas as outras?
R: A inesperada


Espero morrer assim, e no entretanto, ir vivendo, assim, também.

5.10.2008

Instante

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio


Sophia de Mello Breyner Andresen

5.07.2008

Pequenas diferenças

Espanha incentiva a requalificação imobiliária como desígnio estratégico, apenas permitindo construção de raíz por demolição e substituição de imóveis velhos ou incentivando a requalificação dos mesmos. Portugal altera o PDM, corta sobreiros e brinca à especulação imobiliária para construir desordenadamente e selvaticamente fazendo vénias subservientes ao lóbi do betão para onde transitam (escandalosamente) os ex-ministros das obras públicas.

Espanha tem um governo de 17 elementos (9 mulheres e 8 homens), das quais uma ministra (curiosamente grávida) numa área tipicamente masculina como a defesa dando claros sinais à sociedade civil. Portugal possui um governo abastado de 16 elementos (2 mulheres e 14 homens) e afirma (não pondo em prática) a importância de aumentar o peso das mulheres na vida política.

Espanha aponta como desígnios estratégicos de desenvolvimento: a requalificação e ordenamento do território (acima referido), o combate das desigualdades sociais e o desenvolvimento e incentivo às energias renováveis. Aponta e faz (aposto que se verão resultados). Alguém sabe ao certo apontar um único projecto nacional que mobilize a sociedade civil e em que se acredite verdadeiramente na sua implementação e valência?

São, de facto pequeníssimas diferenças. Pormenores quase imperceptíveis. Escolhidos apenas pela proximidade geográfica. Não há, assim, a necessidade de afinar a bitola com o Norte da Europa pois faria aumentar um pouquinho (ligeiramente, lá está) a dimensão das tais pequenas diferenças.

5.06.2008

Mira técnica

Desculpem o desabafo mas não há necessidade para:

  1. a aura motivacional dos discursos do Chalana quando já tínhamos o Paulo Bento.

  2. a cobertura dada ao caso do aparecimento dum salvador do Boavista quando já tinhamos o Salvador Dali como mestre do surrealismo. Por falar em pintura relembro que as camisolas prisionais apenas diferem, das do clube referido, das riscas para os quadrados.

  3. investir em licenças para a televisão de alta definição quando porventura obteriam a nossa licença (pelas razões anteriores entre outras) para reduzir a grão (e se possível sem som) a definição da tradicional. Ai que saudades da mira técnica.

5.05.2008

Rasto de luz



Aquela luz acompanhava-o há muito. À medida que avançava sabia-o agora. Sentia-a cada vez mais presente. Mais intensa. Cada vez mais entranhada na pele. Como uma parte de si só agora revelada. Era uma luz estranha. De cabelos brancos. Uma serpente de lua suspensa. Como se sempre tivesse estado ali. A seu lado. Tão próxima mas oculta. Como que a parte mais distante de si. Dando-lhe apenas pequenos sinais, através de algumas imagens soltas. Perfeitas. Que recordava. Daquelas que prendem a alma a outro mundo sem sabermos porquê. No entanto, nunca se tinha apercebido do seu leito de amante. Como um espelho que finalmente se quebrava em mil pedaços. Deixando de reflectir. Abrindo-se num brilho de lâmina finalmente retirado do peito. Lembrava-se agora dela, numa dança de flashes fotográficos. Sensual. Com uma nitidez insuportável. Que quase o embriagava de tanta beleza. Aquela luz era o amor impossível. Uma anémona acorrentada à escuridão. Uma fénix de asas cortadas que o chamava para se despedir. Para a despedida. Há tanto estendida. Há tanto adiada. Esperara o último adormecer dos corpos. O último silêncio aveludado. O último mar diluindo a noite no seu balançar. O último cansaço. Para o guiar até ali. Àquele local. Beijando o seu olhar sofregamente. Uma última força. Num brilho diferente. No brilho mais intenso que um dia desceu.

5.04.2008

Duas vontades

Tudo no mundo depende de duas vontades: a de querer partir e a de querer ficar. Podes reduzir a guerra, o amor, o dinheiro, a doença e a morte à quantidade de cada um destes dois impulsos. O resto são pormenores.

Francisco M. Tavares

Getting away...


Porque hoje me apeteceu ouvir todas as músicas dos James


Are you aching for the blade?
That's OK, we're insured
Are you aching for the grave?
That's OK, we're insured

We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living

Daniel's saving Grace
She's out in deep water
Hope he's a good swimmer
Daniel plays his ace
Deep inside his temple
He knows how to serve her

We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living
We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living

Daniel drinks his weight
Drinks like Richard Burton
Dance like John Travolta
Now
Daniel's saving Grace
He was all but drowning
Now they live like dolphins

We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living
We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living

We're getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living
Oh, getting away with it all messed up
Getting away with it all messed up
That's the living

Getting away with it
We're getting away with it
That's the living
That's the living


James , Getting away with it all messed up

5.02.2008

Anjos em 20 questões

Assinale com verdadeiro ou falso as 20 questões.


1. É verdade que os anjos andam de ipod e headphones vendo-nos no nosso mundo mas noutra perspectiva bastante mais poética.

2. É mentira (pelo menos duvidoso) que os anjos não tenham sexo.

3. É verdade que os anjos gostam do Tom Ford mas são obrigados a vestir apenas de branco.

4. É mentira que os anjos tenham papos (ainda por cima doces).

5. É verdade que a Heidi Klum é um anjo (pelo menos da Victoria's Secret).

6. É mentira que os anjos usem apenas setas. Apenas o cupido e os anjos índios ainda o fazem (consta que o Guilherme Tell foi para o inferno e o o Robin Wood está com problemas burocráticos no seu processo).

7. É verdade que gosto de caras de anjos maus.

8. É mentira que se um anjo viesse em meu auxílio estava tramado.

9. É verdade que se tivesse mesmo de vir que fosse a Angela do Luc Besson.

10. É mentira que os anjos caem. Foi apenas a conjugação verbal que se colou.

11. É verdade que os anjos têm uma sensualidade algures entre as freiras (falsas) e as enfermeiras (de batas de botões).

12. É mentira que os anjos se revejam no Roberto Leal ou no Júlio Iglésias.

13. É verdade que os anjos só foram para o céu porque se portaram muito mal na terra.

14. É mentira que os anjos sejam oriundos da Guarda.

15. É verdade que os anjos gostam do Angel dos Massive Attack, dos Angels do Jacob Dylan, do e do Angie dos Rolling Stones.

16. É mentira que os anjos apenas se misturem com os demónios no livro da Allende.

17. É verdade que os anjos usam sempre almofadas de penas e não sofrem da coluna.

18. É mentira que os anjos com arcas são os arcanjos.

19. É verdade que os anjos não estão sindicalizados e protestam muito pouco.

20. É mentira que os anjos sejam proprietários de uma paragem de metro (estão sempre em movimento e preferem os céus).

Os resultados da prova serão enviados oportunamente. Boa sorte.

5.01.2008

Paradoxo

Comunicamos de quatro formas: com palavras, com entoação, com expressões e com silêncios. De todas elas as palavras são as que menos comunicam e as que mais conseguem ser falsas ou imprecisas. É a razão porque um bom livro deveria sempre conseguir ser acompanhado de alguns quadros ou fotografias, barulhos, músicas e oscilações. Mesmo que mínimas. Uma espécie de ondulação. Percebem? Possuir páginas em branco, olhares, poros e muitas respirações. Mas a comunicação para o ser verdadeiramente exige um reflexo. Uma metamorfose no ir e voltar. Um toque ou afago que se estende, para lá de nós. Contagiando. Gerando uma acção ou comportamento. É essa a magia da comunicação. A sua pluralidade (não podemos comunicar sozinhos) e imprevisibilidade.


Será essa razão a explicação para algumas pessoas aparentarem tanto problema em comunicar comigo pessoalmente. Não faz mal. A sério. Ficam a saber que eu não acredito apenas nas palavras.



4.30.2008

Estupidamente

Se me acontecesse uma coisa grave quem me iria ver ao Hospital? Eu que detesto Hospitais. Melhor ainda. E o que diriam ou omitiriam? Dei por mim, inexplicavelmente (espero), a pensar nesta questão. Suficientemente estúpida para merecer reflexão, quando tenho milhares de coisas para fazer e para me preocupar. Mas, às vezes, quanto mais estúpidas melhores ou mais chatas, pelo menos. O que não é necessariamente o caso. Mas voltando à questão refiro-me a um caso verdadeiramente grave. Habble con Ele. Pronto. Estão enquadrados? - sempre gostei do Almodovar -. Imaginem que estão ali numa imobilidade vegetal. Sem reacção aparente. Mas por divina ou demoníaca vontade, atentos que nem uma esponja. Não me interessa logicamente as visitas da praxe nem as de obrigação. As conversas e os dizeres politicamente correctos. Tenho curiosidade sim em saber se algumas pessoas iriam. As suas reacções e o que me diriam a sós. E as ausências. E que outras pessoas, não esperaria, e ali estariam. Atente-se. Não sei se me agradaria mais ouvir o bem ou o mal. A alegria ou a tristeza. Nem sequer se mais me agradariam as palavras ou os gestos. Já fiz coisas cheias de intenção (sem nada querer, pelo simples gosto de oferecer), sendo interpretado como estranho. Pois parece que agora já ninguém pode dar nada a ninguém sem querer nada em troca. E não se pode receber nada sem pensar que vamos ficar em falta. Que é que este tipo quer? Mas também já fiz coisas que me arrependo. Acho que em certos momentos, como este (mesmo em Espanhol e com excelente banda sonora), tudo isso deve vir à tona e será talvez tarde. Tão tarde, para dizer certas coisas que há tanto se querem dizer e se guardam. Essas sim tão estupidamente.

4.28.2008

My red mistery

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.


Sophia de Mello Breyner Andresen

4.26.2008

Chamamento

Os dedos quentes nas teclas frias de um piano. O respirar da noite lá fora. À escuta. Envolta num mar de luzes. Atenta. Esperando a próxima nota. A próxima melodia. O tempo suspenso. A pairar. Uma pausa para a bebida. Um afago demorado na madeira polida. Espelho sensual de curvas femininas. Que reflecte ela diferente do som? Talvez a alma seja maior que todos os sentidos. As mãos e as teclas novamente entrelaçadas em beijos tácteis. Soltando um éter invisível. Ameno. Que assenta, aos poucos, nas paredes. Nas cadeiras arrumadas. No chão. Uma espécie de pó arrefecendo em morte lenta, no calar do eco. Lá fora a noite e a cidade misturando-se cada vez mais. Num vulto de mulher vestida de seda e colar de pérolas. Aproximando-se, aos poucos, com os sapatos nas mãos. Abrindo uma fresta da vidraça enorme. Aproximando-se em silêncio daquele piano.

4.25.2008

Liberdade

A liberdade não faz sentido por si só
A liberdade requer respeitos e deveres
A liberdade não é una. É plural
A liberdade tem memória e consciência
A liberdade não é propriedade. É passagem
A liberdade não é dada. É merecida
A liberdade não se define. Pratica-se
A liberdade é frágil e imperfeita
A liberdade precisa de sol, água e carinho
A liberdade não é cravo
A liberdade é terra árida por semear


Para lembrar o quão murcha anda a nossa liberdade

4.24.2008

Drive



Smack, crack, bushwhacked
Tie another one to the racks, baby

Hey kids, rock and roll
Nobody tells you where to go, baby

What if I ride? What if you walk?
What if you rock around the clock?
Tick-tock, tick-tock
What if you did? What if you walk?
What if you tried to get off, baby?

Hey kids, where are you?
Nobody tells you what to do, baby

Hey kids, shake a leg
Maybe you're crazy in the head, baby

Maybe you did, maybe you walked
Maybe you rocked around the clock
Tick-tock, tick-tock
Maybe I ride, maybe you walk
Maybe I drive to get off, baby

Ollie, ollie
Ollie, ollie, ollie
Ollie, ollie in come free, baby

Smack, crack, shack-a-lack
Tie another one to your back, baby

Hey kids, rock and roll
Nobody tells you where to go, baby, baby, baby

REM, Drive

4.23.2008

Olhos verdes

Habituara-se cedo a distinguir a cor das árvores. Cada uma diferente na sua nobreza delicada. Na simplicidade perfeita das folhas, dos ramos. Na dança das sombras. A singularidade das texturas e dos silêncios. Seculares. Esguios. Mas naquele dia um verde de olhos tristes cruzara o seu olhar num brilho magnético. Numa espécie de pedrada na água soltando ondas. Um arrepio repentino que logo se fez calor, como quem conhece uma pessoa e fica amigo de infância. Essa árvore passou a ter nome e raízes profundas que sempre apertam. Lá no alto. Algures entre a folhagem de olhos verdes.

Assíduos do shaker

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