3.07.2008

A menina aflita

“Se uma laranja não for descascada com um sorriso saberá mal. Isto foi o que a avó ensinou. Na faculdade aprendi outras coisas, mas nenhuma mais importante”.

Francisco M. Tavares


A menina aflita relia o livro de apontamentos pela última vez. Como um maestro inseguro. Gesticulando mnemónicas no ar. Presas ao espaço. Obesas. Desprovidas de som.
O tempo corre, veloz, e a menina aflita.

A menina aflita levava as mãos aos olhos, que se fechavam, cerrados. E novamente um gesto, no ar. Chegando a levantar a dúvida se seria muda. Os nervos propagam-se na lentidão da noite.
O tempo esvai-se, insensível, e a menina aflita.

A menina aflita é bonita. Ou feia bonita. Não sei. Nova, isso sim. Tão nova. Nova demais. E parecia que naquele velho livro de apontamentos, de letra redonda, residia o mais geométrico e rectilíneo dos destinos. O tudo ou nada.
O tempo está a acabar e a menina também, de tão aflita.

Chamou-me o olhar, aquela menina aflita.

3.06.2008

A fabulosa fábula dos F's


Um homem franzino chega a um restaurante, senta-se calmamente e, acenando com o braço, diz: - Faz favor: frango frito, favas, farinheira...
- Acompanhado com quê? Pergunta o empregado
- Feijão.
- Deseja beber alguma coisa?
- Fanta fresca.
- Um pãozinho antes da refeição?
- Fatias fininhas.
O empregado anota o pedido, já meio intrigado: "Este tipo fala tudo com F's!"
Depois do homem terminar a refeição, o empregado pergunta-lhe:
- Vai querer sobremesa?
- Fruta.
- Tem alguma preferência?
- Figos.
Depois da sobremesa, o empregado pergunta:
- Deseja um café?
- Forte. Fervendo.
Quando o cliente termina o café:
- Então, como estava o cafézinho?
- Frio, fraco. Faltou filtrar. Formiguinha flutuando.
Aí o empregado pensa: "Vamos ver até aonde é que ele vai".
- Como é que o senhor se chama?
- Fernando Fagundes Faria Filho.
- De onde vem?
- Fafe.
- Trabalha?
- Fui ferreiro.
- Deixou o emprego?
- Fui forçado.
- Por quê?
- Faltou ferro.
- E o que é que fazia?
- Ferrolhos, ferraduras, facas... Ferragens.
- Tem um clube favorito?
- Fui Famalicense.
- E deixou de ser porquê?
- Futebol feio farta.
- Qual e o seu clube, agora?
- Feirense.
- O senhor é casado?
- Fui.
- E sua esposa?
- Faleceu.
- De quê?
- Foram furúnculos, frieiras... ficou fraquinha... finou-se.
O empregado de mesa perde então a calma:
- Olhe lá! Se você disser mais dez palavras começadas com a letra "F"... não paga a conta. Pronto!
- Formidável, fantástico. Foi fácil ficar freguês falando frases fixes.
O homem levanta-se e dirige-se para a saída, enquanto o empregado ainda lança:
- Espere aí! Ainda falta uma!
O homem responde, sem se virar:
- Faltava.

3.05.2008

Lembrança que te esqueci

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
Mário Quintana

3.04.2008

Coisas simples

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.


Nuno Júdice

3.03.2008

Close your eyes



Out on the tar plains, the glides are moving
All looking for a new place to drive
You sit beside me, so newly charming
Sweating dew drops glisten, freshing your side

The sun slips down bedding heavy behind
The front of your dress all shadowy lined
And the droning engine throbs in time
With your beating heart

Way down the lane away, living for another day
The aphids swarm up in the drifting haze
Swim seagull in the sky
Towards that hollow western isle
My envied lady holds you fast in her gaze

The sun slips down bedding heavy behind
The front of your dress all shadowy lined
And the droning engine throbs in time
With your beating heart
Sing Blue Silver

And watching lovers part, I feel you smiling
What glass splinters lie so deep in your mind
To tear out from your eyes
With a word to stiffen brooding lies
But I'll only watch you leave me further behind

The sun slips down bedding heavy behind
The front of your dress all shadowy lined
And the droning engine throbs in time
With your beating heart
Sing Blue Silver

Duran Duran, The chauffer

3.02.2008

Escritor

Era um velho amigo que primeiro olhava, depois respirava, depois falava e só no fim agia. Claro que foi escritor.

Francisco M. Tavares

3.01.2008

Dia 1

O mais importante em qualquer mudança é ter a consciência que temos, em nós, o poder mágico de fazer pequenos milagres.

2.29.2008

Adeus




Adeus, dissemos
E nada mais de então ficou
De asas quebradas
Foi a ave branca que voou
Voa lá alto, que eu morro, bem sei, sem voltar
Cantem as aves do monte qu'eu fui ver o mar.. .

Ai,
Não sei de mim;
Ai,
Não sinto nada..
Ai,
E nem,
Voltei.


Madredeus


Porque custam tanto alguns adeus ?

2.28.2008

Novelo

Quatro e dez da manhã e o sono distante. Algures, vagueando por parte incerta. Perdido, talvez. Subindo e descendo como um barco na ondulação louca das horas. No rodar dos ponteiros. A noite em claro dissipada em pensamentos escuros. Soltos. Dispersos, sem ligação aparente. Pontas soltas dum fino novelo emaranhado. À espera de ser decifrado.

2.27.2008

A pauta

Como uma pauta tinhas duas claves marcadas suavemente no corpo. Escolhidas com uma mestria de diva, sem o mínimo desafino, que usavas como uma capa. Para te resguardares. Sempre o notara, no entanto, nas entrelinhas. Na tua pele, no teu cheiro, no teu movimento adiado. Para lá das palavras e das acções. Sempre te vira como que despida de corpo. Talvez fosse essa estranha sensação que te perturbava. A ausência temporária de camuflagem, o vazio da clareira. O propagar do eco. Amávamo-nos sem nunca o termos admitirmos. No silêncio incómodo da mais mortífera das doença. Sempre o soubemos. Sempre o negámos.

2.26.2008

Close your eyes



The sea it swells like a sore head
And the night it is aching
Two lovers lie with no sheets on their bed
And the day it is breaking

On rainy days, we'd go swimming out
On rainy days, swimming in the sound
On rainy days, we'd go swimming out

You're in my mind all of the time
I know that's not enough
If the sky can crack, there must be some way back
For love and only love

(OPTIONAL: Depending on version)
Electrical Storm
Electrical Storm
Electrical Storm
Baby don't cry
Car alarm won't let ya back to sleep
You're kept awake dreaming someone else's dream
Coffee is cold, but it'll get you through
Compromise, that's nothing new to you

Let's see colours that have never been seen
Let's go to places no one else has been

You're in my mind all of the time
I know that's not enough
Well if the sky can crack, there must be some way back
To love and only love

Electrical Storm
Electrical Storm
Electrical Storm
Baby don't cry

It's hot as hell, honey, in this room
Sure hope the weather will break soon
The air is heavy, heavy as a truck
Need the rain to wash away our bad luck

Hey-yeah, hey-eeyay

Well, If the sky can crack, there must be some way back
To love and only love

Electrical Storm
Electrical Storm
Electrical Storm

Baby don't cry
Baby don't cry
Baby don't cry Baby don't cry

U2, Electrical Storm

2.24.2008

Líquido

Ser chuva pelo teu corpo
envolvendo-te, às primeiras gotas,
nessa forma insipiente
entre a inocência e o despertar do desejo.
Correr em ti, na violência de um rio
arrastando sentidos, levantando estacas.
Infiltrar-me nos lábios, entreabertos,
estremecendo a tempestade
num torpor. Libertando um esgar.
Uma folha, que desce comigo.
Molhar-te os olhos, a pele, os ossos.
Inundar-te a alma de mim.
Gota a gota. Toque a toque,
No barulho da chuva.
Precipitar-me. Diluir-te.
Para que juntos, finalmente,
possamos ser um só.
Misturados, nesse líquido
que já não é chuva e se faz nuvem
no calor da paixão.

2.23.2008

Inspiração

Despertas o melhor que há em mim.
E isso é provavelmente o melhor que se pode receber.
Brindo a esse dom ou inspiração.

2.22.2008

Cassiel




We've come to bring you home
Haven't we, Cassiel?
To cast aside your loss and all your sadness
And shuffle off that mortal coil and mortal madness
For we're here to pick you up and bring you home
Aren't we, Cassiel?

It's a place where you did not belong
Were time itself was mad and far too strong
Where life leapt up laughing and hit you head on
and hurt you, didn't it hurt you, Cassiel?

While time outran you and trouble flew toward you,
and you were there to greet it,
weren't you, foolish Cassiel?

But here we are, we've come to call you home
and here you'll stay never more to stray
Where you can kick off your boots of clay
can't you, Cassiel?

For death and you did recklessly collide
and time ran out of you
and you ran out of time,
didn't you, Cassiel?

and all the clocks, in all the world
may this once just skip a beat in memory of you
then again those damn clocks, they probably won't
will they, Cassiel?

One moment you are there and then strangely you are gone,
but on behalf of all of us here we are glad to have you home
Aren't we, dear Cassiel?

Nick Cave & The Bad Seeds

Para uma senhoria de vários inquilinos não ter vontade, ainda, de partir com Cassiel.

2.21.2008

Proximidade

Quero evitar ao máximo a proximidade. A entrega sem barreiras. A sensibilidade. Tal como quem anuncia que vai deixar de fumar, quero tornar pública essa decisão. E, se não for pedir demais, uma ASAE para me controlar, ao mínimo deslize.

2.20.2008

Mal entendido

Depois, e sempre mais, foi crescendo entre nós o mal-entendido. Não há nada pior que o mal-entendido. Há uma lei que prescreve que o mal-entendido, qualquer verdadeiro mal-entendido, tem uma tendência para crescer, alastrar, tornar-se cada vez mais insuperável, sobretudo, sim sobretudo quando se pretende superá-lo.
O que eu sei, agora que é tarde demais, é que nós não devíamos ter falado. Devíamos ter ficado calados. Devíamos ter feito o que tínhamos a fazer, cada um a sua coisa e os dois o que se pode fazer a dois – e há – mas sempre em silêncio, usando só pequenos gestos de mãos e aprendendo com todo o cuidado a ler nas expressões da cara o que mostra a alma. Também, de verdade, não há muito a dizer que não se possa dizer assim sem palavras.

Uma palavra pede outra palavra e uma frase outra frase e, aliás, nem há palavras, há só uma conversa que alguém começou há muito tempo e foi continuando sem acabar, sem nunca poder acabar porque, simplesmente, não devia ter começado. Vem no Livro que tudo isto começou com uma palavra, uma palavra, quem sabe, mal entendida.


Pedro Paixão

2.19.2008

No mar

No mar me perco para sempre me encontrar
No mar foge-me o pensamento para parte incerta
No mar sou peixe, horizonte e corrente
No mar viajo em espiral. Pelos ecos de búzio
No mar pernoita outro tempo
No mar não há fim, há começo
No mar toca uma música familiar que embala o respirar
No mar existe um silêncio encorpado. Ensurdecedor
No mar gela a pele mas fica o calor
No mar sou pequeno mas maior
No mar me deito com os olhos nas estrelas
No mar ondulo em cheiros e maresia
No mar dança a mais bela das histórias
No mar nasce o sal da tua pele
No mar entro para nunca voltar
No mar estou mais próximo de mim
No mar me perco
No mar me conheço

2.18.2008

Pedras e sentimentos

Iletrados de sentimentos
vamo-nos moldando, aos poucos
num barro árido e gretado
cujo tom já não é o do sangue
mas o do betão.
Espesso e intransponível
revelando frestas sedentas
cortando, aguçadas, as mãos
de quem lhes tenta tocar.
Pó mal cozido
por falta de calor dos afectos
Enfraquecido ao sol.
Deixado à morte,
no falso viver dos dias.
Falamos muito para nada dizer
Somos prisioneiros dos corpos
embaciados de alma
que tudo guardam
e nada recebem sem desconfiar
Vemos fraqueza na aproximação
ridículo no esticar de mão.
Trocamos os Tus pelos Eus
Vestimo-nos da falta de tempo
ou deitamo-nos em caixas de Pandora
outrora tão diferentes.
Disponíveis. Sensíveis.
Ocultamos afectos
como uma virtude
esquecendo que só amamos verdadeiramente
aqueles a quem conhecemos
melhor que eles próprios.
Estou cansado de pedras preciosas
O meu tesouro é o brilho dos sentimentos

2.17.2008

Segredo

Encontrei o segredo, a chave de vidro
das palavras que escrevo; e tenho medo.
Talvez nos campos imensos, onde o lírio floresce,
na margem de rio que abriga, de manhã cedo,
os teus pés de ninfa, num engano de idade,
me tenhas visto à sombra de um rochedo;
e se os teus lábios, entreabertos num torpor
de romã, me tocaram num sonho bêbedo,
deles só lembro, imprecisos, fluxos
de incêndio numa hipótese de amor.

Nuno Júdice

Assíduos do shaker

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