12.31.2007

12 passas


1. Saúde

2. Paz de espírito (nova lei do arrendamento)

3. Tempo (sobretudo para os outros)

4. Nunca perder o humor e contagiar o sorriso

5. Entusiasmo e ideais

6. Acreditar em anjos, fadas, sereias e sobretudo em impossíveis

7. Acompanhar, educar e aprender com as crianças

8. Errar. Voltar a errar mas nunca deixar de tentar

9. Aprender continuamente

10. Emocionar-me com silêncios brilhantes

11. Passa... (este guardo para mim)

12. Que “crentes e extremistas” cuidem do mar e da terra se almejam o céu


Bom ano a todos, se possível melhor que o meu.

12.30.2007

Sacode as nuvens

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner

12.29.2007

Pernoitas em mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


Al Berto

12.28.2007

Two shots of happy, one shot of sad

Alegria triste. Tristeza alegre. Dançaram abraçadas pelo velho gira-discos. Soando à imagem do teu corpo. Sorrindo, no quente da areia. O afagar dos teus lentos cabelos erradiando luz e alegria. Alimentam-me. Quero-te bem. O melhor. Mas nesse canto minotauro não pude deixar de sentir a tristeza das agulhas arranhabdo o vinil desejo de te ter. Perdoa-me a sinceridade. Two shots of happy, one shot of sad.


Two shots of happy, one shot of sad
You think I'm no good, well I know I've been bad
Took you to a place, now you can't get back
Two shots of happy, one shot of sad

Walked together down a dead end street
We were mixing the bitter with the sweet
Don't try to figure out what we might of had
Just two shots of happy, one shot of sad

Two shots of happy, one shot of sad
I'm not complaining, baby I'm glad
You call it a compromise, well what's that
Two shots of happy, one shot of sad

Two shots of happy, one shot of sad

U2

12.27.2007

Ming, o peixe Koi

Em ti morava o reflexo quente do sol. Mágico. Magnético. Que sempre me prendia o olhar. Eras o mais lento do lago, duma calma sobrenatural que intimidava o tempo e afastava o interesse de qualquer movimento. Numa dança de fogo molhado. O mundo parava no teu lento agitar das águas, desenhando formas e lugares, enviando histórias na ténue ondulação. Comias à minha mão e sempre comunicámos em silêncios profundos e radiosos.

12.26.2007

Sometimes






There's a storm outside, and the gap between crack and thunder
Crack and thunder, is closing in, is closing in
The rain floods gutters, and makes a great sound on the concrete
On a flat roof, there's a boy leaning against the wall of rain
Aerial held high, calling "come on thunder, come on thunder"

Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul
Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul

It's a monsoon, and the rain lifts lids off cars
Spinning buses like toys, stripping them to chrome
Across the bay, the waves are turning into something else
Picking up fishing boats and spewing them on the shore

The boy is hit, lit up against the sky, like a sign, like a neon sign
And he crumples, drops into the gutter, legs twitching
The flood swells his clothes and delivers him on, delivers him on

Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul
Sometimes, when I look deep in your eyes,
I swear I can see your soul

There's four new colors in the rainbow
An old man's taking polaroid’s
But all he captures is endless rain, endless rain
He says listen, takes my head and puts my ear to his
And I swear I can hear the sea

Sometimes, when I look in your eyes I can see your soul
(I can reach your soul)
(I can touch your soul)
Sometimes

James

12.25.2007

Dias

Há dias em que morremos um pouco. Um pouco mais rápido. Um pouco mais certos na incerteza. Um pouco mais. Dias em que se crava fundo o frio da decepção e se entranha o manto branco do desalento. Onde as forças se afundam e levitam memórias. Percorrendo, em segundos, uma vida que quase não se deu conta passar. Dias onde o relógio invisível se faz notar. Onde se deixa ir na corrente. Algures. Para longe de nós. Dias pálidos. Dias em que morremos. Um pouco mais.


O que me abate verdadeiramente é não conseguir estar à altura para esbater o sofrimento dos que me são mais chegados. Desculpa-me.

12.22.2007

A crise

Cliente (C): Boa tarde. Podia dizer-me o preço destes botões de punho? Não estão marcados.

Funcionária (F): Botões de punho? Isto não são botões de punho. São... são... Ó colega o que é "isto"? São... Uma coisa que ficou ai.

C: Desculpe, mas são botões de punho.

F: Ó colega quanto é que “isto” custa? Deixe ver... Não está registado no sistema...

C: Se quiser oferecer-mos eu aceito.

F: Por mim...

C: Tudo bem deixe estar, quero zelar pelo seu posto de trabalho. Boas Festas!

Apenas não pedi o livro de reclamações pois estamos no Natal e temos que compreender que o comércio em Portugal anda mesmo mau. É da economia. Que havemos de fazer...

12.21.2007

12.19.2007

Pequenas diferenças

O mundo está cada vez mais igual. Avançando aos poucos, pé ante pé. Camuflado no frenesim do movimento. Imperceptível aos menos atentos. Cobrindo tudo duma tinta espessa. Pastosa. Asfixiando as cores, esbatendo as luzes num tom uniforme. Insuportavelmente igual.

Globalizam-se gostos e desejos. Estereotipam-se estilos. Moldam-se causas e vontades. Acentuam-se desigualdades e injustiças. A informação é comprada em pacotes e disseminada em modas, sem o devido tratamento ou juízos de valor. Tudo se aceita. Nada se contesta se nos deixamos embalar no seu cavalgar.

O verdadeiro poder é reservado e corporativo. Oculto. Move-se discretamente na sombra das ilusões lançadas. Tomando as rédeas deste mundo uniforme.

Não podemos mudar o mundo, mas devemos procurar o conhecimento, a exigência e os valores que nos permitirão, talvez, não deixar fugir as pequenas diferenças.

12.18.2007

Folha branca

O tempo e o espaço concentrados no infinito branco da folha despida. Simplicidade vazia que tudo absorve e permite. Lago de silêncios magnéticos ávidos de aparos e afagos. Textura impaciente. Sempre expectante. Cálida nudez sedutora de partidas ou destinos. Nunca de chegadas. Caminho incerto. Cama. Desfilamento.

A felina necessidade da escrita. Rugindo. Afiando as unhas. Aproximando-se lentamente da pele. O peso da necessidade. Palavras soltas que correm para um amplo largo empedrado. Ecos que levantam voo. Respirar. Arrepios. Uma droga que se espalha escorrendo da alma. Talvez. Depositando o seu corpo cansado na insuportável brancura da folha. Branca. Branca. Tão branca.

12.17.2007

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

12.13.2007

A thousand kisses deep.





The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it's done -
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it's real,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
You lose your grip, and then you slip
Into the Masterpiece.
And maybe I had miles to drive,
And promises to keep:
You ditch it all to stay alive,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea:
I saw there were no oceans left
For scavengers like me.
I made it to the forward deck
I blessed our remnant fleet -
And then consented to be wrecked,
A Thousand Kisses Deep.

I'm turning tricks, I'm getting fixed,
I'm back on Boogie Street.
I guess they won't exchange the gifts
That you were meant to keep.
And quiet is the thought of you
The file on you complete,
Except what we forgot to do,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it's done -
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it's real,
A Thousand Kisses Deep.


Leonard Cohen

12.12.2007

Mar revolto

Queria dizer-te o mar revolto que um dia aprisionei. Maré contida mas indomável. Bater incessante que sempre volta em busca de uma fresta de palavra para se libertar. Fome voraz de passado esquecido. Que sempre flui para ti.

No contorno dos lábios ondula esse mar. Ancorado. Depositando o sal e a espuma dos dias guardados. Levantando a poderosa tempestade que sempre se agita no silêncio profundo do nosso olhar.

De nada serve falar a este nível de abstracção. O mar é sempre vasto e incerto. Sem principio nem fim e eu já me habituei a ele. Revolto.

12.11.2007

Claridade e escuridão

Escuro. Dava-se cada vez melhor no escuro. Na ausência. No nada.
Nada já lhe interessava. Nada o comovia. Nada.
O mundo fora perdendo cor e a luz tornara-se, aos poucos, insuportável. Perdera a vontade dos dias. Apenas tacteando os silêncios frágeis da noite. Vazia. Protegida. Sagrada.
O seu corpo tornara-se uma casa inabitada. Inóspita. Apenas visitada por um vácuo antigo que lhe fortalecia os sentidos. Tornando-o num predador de silêncios. Via no escuro a tinta invisível dos dias, protegida dos olhares. Uma inocência perdida, evaporada com o calor do sol. As falsas verdades. A coragem adiada. Os valores esquecidos. Também pairavam no negro enxame do escuro. Na transpiração do dia acabado. Cansava-o essa predisposição pois tornava-o seu escravo. Era, no entanto, apenas o que lhe restava e o prendia a este mundo de claridade e escuridão.

12.10.2007

Eu quero morrer no mar

Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.

Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.

E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois de amor meu amor
que quero morrer no mar.

António Lobo Antunes

Assíduos do shaker

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