Amputados os braços,numa cruel infelicidade
Eis que espreitou réptil ironia
Um ramo e um remo
Escondidos cresceram,
Fortes e invisíveis
O aroma dos frutos
Mergulhou nos lábios
Para soltar amarras
Do verbo navegar
“It’s not what you say that stirs people, it’s the way you say it”
Pudera eu guardar dos instantes
"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem."
B. Brench
O caminho encurtava à medida que avançava. Comprimindo o peso dos espaços vazios contra o seu corpo. Asfixiando-o. Concentrando-lhe o olhar num ponto longínquo. Indefinido. Como se nada existisse em redor. Apenas aquela direcção ténue. Aquele ponto mais brilhante. Aquele lugar protegido. Algures, lá longe.
Os pés caminhavam agora, a medo, sobre uma linha cada vez mais fina e difícil de seguir. Uma lâmina afiada desafiando o equilíbrio. Fazendo-o balançar.
Dum lado, a sensação de transpor uma cascata, evadido por um suceder de bandeiras de céu que lhe tocavam no rosto, confundindo o olhar numa maresia azul a invadir a alma. Do outro, a atracção do abismo, sussurrando segredos por desvendar. Um infinito de noite e silencio em que apetecia mergulhar.
Continuou, passo a passo, já em território sagrado. Nunca pisado. Proibido. Sentia vozes enfurecidas no vento e um suave chamamento. Um uivo ferido, na folhagem, em pequenas gotas de luar. Estava muito perto. Sabia-o. Mas não conseguia decifrar o que avistava.
Estava esgotado e não conseguia parar. Olhou para traz num breve segundo, como numa subconsciente despedida. Ao tirar os olhos do ponto apenas ouviu um barulho de pássaros assustados e uma linha invisível a vibrar.
Fechou os olhos e respirou fundo. Nunca ninguém estivera tão perto…
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
luta de sonâmbulos animais sob chuva. Insectos quentes escavam geometrias de baba pelas paredes do quarto. em agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina da noite. são os resíduos ensanguentados do ritual.