10.25.2007

Réptil

Amputados os braços,
numa cruel infelicidade
Eis que espreitou réptil ironia

Um ramo e um remo
Escondidos cresceram,
Fortes e invisíveis

O aroma dos frutos
Mergulhou nos lábios
Para soltar amarras
Do verbo navegar

10.22.2007

My advertisings #1

“It’s not what you say that stirs people, it’s the way you say it”

Bill Bernbach

Publicidade é “persuasão comercial”. Que me perdoem os que a tentam elevar a forma de arte mas o seu intuito e propósito é vender. Simples. Para quê complicar?

Para que uma mensagem “venda” e crie impacto tem de ultrapassar a difícil barreira da atenção selectiva e o efeito ruído gerado pelo “bombardeamento” de estímulos a que estamos sujeitos.

O consumidor médio está exposto a cerca de 1.500 mensagens por dia das quais apenas tem capacidade para receber 30 a 80, e só menos de 10 têm, de facto, alguma probabilidade para influenciar o seu comportamento. Daí que apenas se consiga fazê-lo de duas formas: com frequência ou impacto. A frequência é fácil de conseguir, apesar de cara, e o impacto é a gene da criatividade de um bom anúncio.

Mas o que é um bom anúncio? No meio de tanta má publicidade como avalia-la? Dois requisitos: Conseguir destaque (pela surpresa, dinamismo, humor, emoção ou outra característica) e ser simultaneamente relevante para o produto, serviço ou marca que se anuncia, o que, muitas vezes não se verifica. A boa publicidade tem de reunir essas duas condições.

Toda esta conversa, provavelmente desinteressante para os meus estimados leitores, apenas para introduzir uma nova série de alguns spots publicitários que permitam defender a honra da “boa publicidade”, nos seus vários estilos, neste deserto de ideias, mau gosto e vale tudo que infelizmente imperam.


to be continued...

10.21.2007

Darkness

Pela fresta da noite, por uma porta adormecida, entrou. Com o seu passo vagaroso e longo manto. Camuflando os espaços, murchando as plantas, à passagem. Conseguia ouvi-lo, no silêncio do escuro. Imóvel olhar animal. Vampiro da minha luz. Droga doce que me possui e adormece.

10.20.2007

É preciso

É preciso o amor
O fogo
O brilho
A sede

É preciso a amizade
O abraço
A mão
O abrigo

É preciso a viagem
O destino
O futuro
A descoberta

É preciso a saudade
O cheiro
A distância
O mar

É preciso o tempo
O livro
O erro
A idade

É preciso renascer
A árvore
A água
O amanhecer

É preciso
ser preciso
no que é
mesmo preciso

10.19.2007

Instantes

Pudera eu guardar dos instantes
O cheiro, o travo e a cor
Capturar da ternura a essência
Do beijo reter o sabor
E a força com que me enlaça
Quando a paixão extravasa
E a cor do amor no olhar
Quando o corpo cansado entardece.
Ah...Se dos instantes pudesse
Guardar encantamento e magia
E viver-te só mais um dia
Ou um momento que fosse.


M.
Benvinda M. adoro todos os seus "instantes"

10.18.2007

Pena caída

Pena caída
Que balanças o tempo
Com o teu movimento
onde irás cair?

Fazes-te folha no rio
Correndo livre
á deriva
Para onde te levarão?

Serás pedra pesada
Ou árvore que cresce
No infinito de meu ser
No voou de um pássaro


10.17.2007

Save a prayer





You saw me standing by the wall,
Corner of a main street
And the lights are flashing on your window sill
All alone ain't much fun,
So you're looking for the thrill
And you know just what it takes and where to go

Don't save a prayer for me now,
Save it 'til the morning after
No, don't say a prayer for me now,
Save it 'til the morning after

Feel the breeze deep on the inside,
Look you down into the well
If you can, you'll see the world in all his fire
Take a chance
(Like all dreamers can't find another way)
You don't have to dream it all, just live a day

Don't say a prayer for me now,
Save it 'til the morning after
No, don't say a prayer for me now,
Save it 'til the morning after
Save it 'til the morning after,
Save it till the morning after

Pretty looking road,
try to hold the rising floods that fill my skin
Don't ask me why I'll keep my promise,
I'll melt the ice
And you wanted to dance so I asked you to dance
But fear is in your soul
Some people call it a one night stand
But we can call it paradise

Don't say a prayer for me now,
Save it 'til the morning after
No, don't say a prayer for me now,
Save it 'til the morning after
Save it 'til the morning after
Save it 'til the morning after
Save it 'til the morning after
Save it 'til the morning after

Save a prayer 'til the morning after



Duran Duran

10.09.2007

Cor de mundo novo

Apetecia-me pintar o mundo de novo
Num tom mais intenso
Denso. Propenso ao calmo contemplar
Uma cor de grito
Que fizesse parar
O distraído. O apressado. O insensível
A que ninguém fosse indiferente.
Uma cor de apreço e respeito
Maga no sussurrar das aves
Coladas ao peito

Apetecia-me pintar o mundo de novo.
Começar nas coisas simples
e nelas pernoitar
numa cor de grilo na noite fria
Destapando o cheiro da terra molhada
Uma árvore de astros e elementos
Onda em movimento
Sem arcas nem Noés
Deuses ou Moisés
Apenas cor de sonhos e afectos

Apetecia-me pintar o mundo de novo
Num tom de tigre
Insaciável por futilidades e inutilidades
Que as espremesse num sumo mais vivo
Laranja pôr do sol.
Um mundo novo
Que ao brilhar
nessa cor
Fosse de novo
Um mundo melhor

10.07.2007

The secret point

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem."

B. Brench


O caminho encurtava à medida que avançava. Comprimindo o peso dos espaços vazios contra o seu corpo. Asfixiando-o. Concentrando-lhe o olhar num ponto longínquo. Indefinido. Como se nada existisse em redor. Apenas aquela direcção ténue. Aquele ponto mais brilhante. Aquele lugar protegido. Algures, lá longe.

Os pés caminhavam agora, a medo, sobre uma linha cada vez mais fina e difícil de seguir. Uma lâmina afiada desafiando o equilíbrio. Fazendo-o balançar.

Dum lado, a sensação de transpor uma cascata, evadido por um suceder de bandeiras de céu que lhe tocavam no rosto, confundindo o olhar numa maresia azul a invadir a alma. Do outro, a atracção do abismo, sussurrando segredos por desvendar. Um infinito de noite e silencio em que apetecia mergulhar.

Continuou, passo a passo, já em território sagrado. Nunca pisado. Proibido. Sentia vozes enfurecidas no vento e um suave chamamento. Um uivo ferido, na folhagem, em pequenas gotas de luar. Estava muito perto. Sabia-o. Mas não conseguia decifrar o que avistava.

Estava esgotado e não conseguia parar. Olhou para traz num breve segundo, como numa subconsciente despedida. Ao tirar os olhos do ponto apenas ouviu um barulho de pássaros assustados e uma linha invisível a vibrar.

Fechou os olhos e respirou fundo. Nunca ninguém estivera tão perto…


10.05.2007

So invisible

Ultimamente pintei-me de uma transparência quase invisível. Espelho observador que tudo absorve e nada reflecte. Rio calmo, seco de palavras mas, curiosamente, arrastando tanto que fica por dizer.

10.04.2007

Se tu viesses...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca

10.03.2007

Amizade

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.


Vinícius De Moraes

10.02.2007

Educação

"A educação das pessoas vê-se no modo como tratam quem as serve"

Esta frase ficou-me. Infelizmente recordo-me dela tantas vezes.

10.01.2007

O morto

Tenho andado com muito sono ultimamente. Não sei se prefira nunca mais acordar ou esta dormência penosa, que vejo, acordado.


Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!


Mário Quintana

9.30.2007

Atrium

luta de sonâmbulos animais sob chuva. Insectos quentes escavam geometrias de baba pelas paredes do quarto. em agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina da noite. são os resíduos ensanguentados do ritual.
na cal viva da memória dorme o corpo. vem lamber-lhe as pálpebras um cão ferido. acorda-o para a inútil deambulação da escrita.
abandonado vou pelo caminho de sinuosas cidades. sozinho, procuro o fio de néon que me indica a saída.
eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite: os corpos de Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades.
eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia, metamorfose, água, fúria, lucidez, cinzas.
ardem cidades, ardem palavras. inocentes chamas que nomeiam amigos, lugares, objectos, arqueologias. arde a paixão do esquecimento de voltar a dialogar com o mundo. arde a língua daquele que perdeu o medo.
germinam fluidos mágicos por dentro da matéria contaminada do corpo, os órgãos profundos gemem assustados pelo excesso. nunca mais voltámos a encontrar um paraíso. a pausa para respirar não existe, o tempo dos grandes desertos absorveu a seiva dos adolescentes dias.
a insónia, essa ferida cor de ferrugem, festeja noctívagas alucinações sobre a pele. no ácido écran das pálpebras acendem-se quartos alugados onde pernoitamos. são enfim brancos esses pedaços de memória onde dávamos abrigo e sossego aos corpos.
para sobreviver à noite decidimos perder a memória, cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, registámos inquietas vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática das máscaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza. escutámos o que há de inaudível em nossos corpos.
era quase manhã no fim deste cansaço. despertava em nós o vago e trémulo desejo de escrever.
passaram doze anos e esquecer-te seria esquecer-me. repara no estremecimento do sangue, a morte rendilhando peste nos ossos, os dedos paralisados, a fala, os espelhos.
no escuro beco do mundo segredo abelhas de esperma, a luz do mar onde teço corpos de água, a escrita que vem da treva, lembro-me: um corpo voltou a mover-se no interior do meu.

hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar…
releio o que escrevi há doze anos neste mesmo lugar: as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras. a escrita que inventámos evadiu-se do corpo. o vazio devora-nos. onde estivemos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?

não estás aqui mas vejo-te nítido quando uma pétala de bruma envolve a casa e adormece o desejo. um astro ininteligível e de órbita difícil guia-me, ilumina-te. pelas frestas dum espaço oco perscruto o oco do meu corpo, o silente medo de continuar vivo.
sento-me no cimo do meu próprio lixo e sorrio. espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.


Al Berto

9.29.2007

Live forever





Maybe I don't really want to know
How your garden grows
I just want to fly
Lately did you ever feel the pain
In the morning rain
As it soaks it to the bone

Maybe I just want to fly
I want to live I don't want to die
Maybe I just want to breath
Maybe I just don't believe
Maybe you're the same as me
We see things they'll never see
You and I are gonna live forever

Maybe I don't really want to know
How your garden grows
I just want to fly
Lately did you ever feel the pain
In the morning rain
As it soaks it to the bone

Maybe I will never be
All the things that I want to be
But now is not the time to cry
Now's the time to find out why
I think you're the same as me
We see things they'll never see
You and I are gonna live forever
We're gonna live forever
Gonna live forever
Live forever
Forever


Oasis

9.28.2007

História

É importante alimentar a memória e conhecer o passado. Mas a História nunca conta verdadeiramente tudo.

9.27.2007

Sílabas

Há uma mulher que desenrola os seus cabelos nas sílabas
e perfuma-as com o odor da sua lenta vulva
Ela tanto pode ser uma fêmea da lua como uma rapariga solar
Nas suas ancas ondula um indolente outono e nos seus seios desponta a primavera

Eu vejo-a e não a vejo na brancura da página
porque ela flutua vagamente na distância como uma lua no meio-dia
Mares bosques clareiras fontes em delicadas e delgadas linhas
fluem com o fulgor dessa mulher azul
As palavras caminham com o ritmo fresco dos seus pés descalços
sobre uma praia fulva de conchinhas brancas
O seu hálito doce embriaga as leves sílabas
e a doçura do seu lábio impregna as frases nuas
Ela é a presença ausente corpo de aragem viva
e a sua felicidade é tão vaga como vaga a sua longínqua imagem


Ramos Rosa

Assíduos do shaker

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin