9.17.2007

Filmes 15

E assim termina este breve, e porventura desinteressante, apanhado sobre os filmes que me ocorreram quando me questionei sobre a recorrente pergunta dos filmes da minha vida.

Sem qualquer ordem de importância e verificando a extrema dificuldade de escolha e o esquecimento de alguns importantes fui fiel à lista inicial que me surgiu.

Que me perdoem Woody Allen’s, Clint Eastwood’s, Tim Burton’s, Cronemberg’s, Luc Besson's e Kurosawa’s mas tinha que respeitar o prometido e terminar nos 15, reservando para último o verdadeiro filme da minha vida: o próximo, que estou continuamente a descobrir.

9.16.2007

Filmes 14

Um thriller enigmático. A sensação de desolação e loucura numa espécie de solidão que exprime um estado interior. A assustadora vingança da natureza sobre o Homem, servida num suspense perfeito, quase sádico.


A história inicia-se numa loja de animais onde uma bela mulher, rica e sedutora, ao sentir-se atraída por um homem, decide comprar um casal de pássaros para lhe fazer uma surpresa. Oferecendo-os, mais tarde, na sua terra natal - Boodega Bay.

Uma vez chegada a essa pequena e pacata localidade é estranhamente atacada por uma gaivota. Seguem-se inexplicáveis e sucessivos ataques de pássaros aos habitantes locais. Ninguém sabe o porquê de tal fenómeno. Fica no ar uma multiplicidade de suposições, desde uma possível manifestação sobrenatural sobre o pecado cometido a uma irónica inversão dos papéis predador/presa, com as aves comandando o ser humano remetido para a gaiola.

No fim, o aguardado e tradicional “The End” não surge no ecrã, deixando a dúvida incómoda da luta entre o animal e o Homem, entre o racional e o irracional, entre a ordem e o caos.


The Birds, Alfred Hitchcock, 1963

9.15.2007

Filmes 13

Oh Capitain, my capitain. Porque há pessoas que nos inspiram e marcam as nossas vidas.


Em 1959, num colégio particular de rapazes, um novo e carismático professor de literatura inglesa incentiva os alunos a pensarem por si mesmos e a perseguirem sempre as suas paixões individuais, incentivando-os a viverem as suas vidas em pleno. Os seus métodos de ensino pouco convencionais cedo entram em choque com os valores tradicionais e conservadores preconizados pela ortodoxa direcção do colégio, principalmente quando fala aos seus alunos sobre a "Sociedade dos Poetas Mortos".
Repleto de citações de grandes nomes da literatura de língua inglesa, como Henry David Thoreau, Walt Whitman e Byron, e de belas imagens metafóricas deixa uma profunda mensagem de vida sintetizada na expressão latina Carpe Diem.

Dead Poets Society, Peter Weir, 1989

9.12.2007

Lábios

Dormíamos nus
no interior dos frutos.

É o que temos: sono
e a estiagem subitamente
até ao fim.

Amargos.

Pela humidade descia-se
Às fontes – lembro-me.
Dos lábios.

Eugénio de Andrade

9.09.2007

Dizem que a paixão o conheceu

Dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos
Al Berto

9.07.2007

Túnica

Apetece-me âncorar nesta praia deserta e ali ficar deitado. Respirar. Apenas respirar, embalado pelo mar, permanecendo imóvel como um barco encalhado. Olhando o desvanecer do céu na noite. À espera da morte. Fechar os olhos e sentir o leve assentar da sua túnica. Misturar-me na areia e voar em todas as direcções.

9.05.2007

A casca

Como detesto cascas...


Continuamos a tratar da casca
Continuamos a moldar a casca
Continuamos a remar de costas
E a provar águas quase mortas
E a viver ruas já pisadas
E a levar pedras já usadas
Num saco meio roto
Num saco meio morto

Tentamos não manchar a casca
Para fazer brilhar a casca
Tentamos não parar de costas
Tentamos não falhar respostas
Que nunca nos vejam de fora!!
É para nós que o mundo adora
Passos de dança no chão
É para nós que os olhos olham.

Tentamos disfarçar demónios
Por medo desviamos olhos
Por fuga apagamos fogos
Por escudos renascemos novos
Sem rasto esquecemos lábios
Altivos, rastejamos, sábios
Cada vez mais fundo
No buraco do mundo

Com força agarra-se a casca
Que é só o que nos resta
Que o mastro derreteu
Mais tudo encolheu
Quisemos testar barreiras
E construímos teias
Difíceis de romper
E aqui ficamos presos
...na casca.

Casca é tempo que dói
É janela fechada que estilhaça
quando se olha para trás..
Vento é o que bate na cara
É só largar a casca!!
Não se olha para trás!


Toranja

9.04.2007

Devir animal

Àquela hora naquele lugar. Como que num passo de mágica, as pessoas encarnavam o animal escondido nos seus corpos. Já tinha assistido a muitas manifestações desse fenómeno. Num gesto. Numa feição ou reacção. Num olhar. Aqui ou acolá, neste mundo de semelhanças e eternas repetições. Mas assim. Tão notório, tão explicito. Nunca vira. Naquela combinação astral, de hora e local, misturada talvez, numa outra coordenada indecifrável, algo inacreditável tornava-se na mais pura das evidencias. Indiscutível. Irrefutável. Por breves momentos, um regresso à inocência. Onde a mais vil crueldade humana se dissipava no vento. A mais urgente das pressas estalava em cacos ao sol e um aroma adocicado, de loucura colectiva, pairava algures na folhagem. Por breves momentos, eliminavam-se distâncias e o mundo tornava-se melhor.


Inspirado num quadro de Paula Rêgo

9.02.2007

Filmes 12

Um lugar para além dos sonhos. Uma especiaria mágica no centro do universo. Um filme para além da imaginação


Baseado no livro de Frank Herbert, considerada uma das maiores obras de ficção científica de todos os tempos, apresenta-nos um fantástico mundo longínquo de ameaças, esplendor e intriga. Dune passa-se num futuro distante, no meio de um império inter-galático em expansão, onde feudos planetários são controlados por casas nobres. A história explora as complexas interacções entre política, religião, ecologia, tecnologia e emoções humanas.
O planeta Dune contem vermes gigantes que guardam o mais precioso e inestimável bem do universo - a especiaria “Melange”que permite viajar através do tempo e do espaço. Quem controlar a especiaria e os seus segredos controlará o universo.


Dune, David Lynch, 1984

9.01.2007

Filmes 11

A pantanosa loucura da guerra. A ausência de sentido, num gás sombrio de ilusões impregnando, aos poucos, a realidade.


Em plena guerra do Vietname, um oficial americano é enviado numa missão secreta até ao Camboja. Objectivo: “destruir” um enigmático coronel que, controlando uma tribo na selva remota, se encontra louco e fora de controlo.

Durante a jornada, rio acima, acompanhado por quatro tripulantes, que servem como microcosmo da força de guerra americana, tudo parece estar ao sabor da ilusão, da loucura e das sombras mais obscuras do coração humano.

Quadro fiel do horror, sensibilidade e dilema moral da guerra americana mais surrealista e obscura.

Apocalypse Now, Francis Ford Copolla, 1979

8.30.2007

Filmes 10

Uma história crivada de suspense. Uma envolvente viagem de obsessão sexual numa atmosfera quase irreal. Cenas elegantemente filmadas, ritmos controlados, riqueza de cores, imagens ousadas e surpreendentes.


Um médico, casado com uma curadora de arte vivem o casamento perfeito até que, após uma festa, ela lhe confessa ter sentido uma atracção por outro homem e que seria capaz de o deixar e à sua filha por ele. Assombrado por esta confissão o médico transforma uma fatídica noite de Inverno numa busca erótica que ameaça o seu casamento e o pode levar a envolver-se num misterioso assassínio. Um filme erótico sobre relacionamentos.


Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick, 1999

8.29.2007

Estranho cansaço

Que cansaço é este
que enche sorrateiro
os corpos duma água pesada
Absorvendo movimentos
Turvando olhares
Calmo mas violento
Afogando sonhos. Alegrias

Que cansaço é este
Que transforma almas
em esponjas atoladas
Atordoadas
Indiferentes a outras formas
Rejeitando gotas de esperança

Que cansaço é esse
Pântano assassino
Que consome o oxigénio
Em redor
Arrastando o andar
Para zonas sem pé

Algures, estagnado
Mora um cansaço
Permanecendo
Vertendo lágrimas
para não rebentar
Cansado de si mesmo



8.28.2007

Shibumi

Era uma casa antiga. Enorme para apenas uma pessoa. Mas sempre gostara de espaço. Do espaço por si só. Sem adornos ou decorações. Espaço aberto, em estado bruto. Cru. Matéria invisível, albergando um silêncio sábio e fecundo, comprimido entre as paredes despidas. Como que a querer escapar.

Tinha tido alguma dificuldade em chegar àquele ermo distante, perdido no mapa, no meio do nada. Mas, ao chegar, bastou-lhe uma volta rápida para se apaixonar e decidir ficar.
Os soalhos rangiam, corroídos pelo tempo e as espessas paredes de pedra, transmitiam uma frescura sonora, que se agarrava ao corpo, num eco sedutor. As amplas divisões vazias, sussurravam histórias, sedentas de um ouvinte mais atento. Envolvendo rapidamente o corpo estranho que ocupava parte daquele espaço sagrado, fazendo-nos sentir imediatamente esmagados por algo superior.

Tudo era fluir. Uma corrente magnética que se sentia sem se ver. O que mais o fascinou foi a paisagem, que decorava toda a casa. Inundando-a de uma luz que nunca vira. Embalando o olhar. Sobretudo a de uma divisão onde instalou apenas uma poltrona confortável. Ficando horas, embevecido, absorvendo a simplicidade das coisas, contemplando o ambiente minimalista mas ao mesmo tempo tão vasto.

Lembrava-se frequentemente da palavra japonesa de que tanto gostava – Shibumi, a verdadeira sofisticação das coisas simples – ao contemplar aquela simbiose perfeita de espaço e paisagem, numa dança frágil a perder de vista. Estava pronto para mais uma etapa.

8.27.2007

Beyond

Cada vez me interesso menos pelo que leio ou escrevo, para me interessar muito mais pelo que lhe deu origem. Escondido, algures, por de traz da folha.

8.26.2007

Filmes 9

Uma mente rebelde, colorindo espaços esvaziados. Na silenciosa sombra do índio gigante. Retracto de um mundo perturbador.


Um malandro humorado, após ser preso, finge-se louco para ir para um hospital psiquiátrico. O seu espírito rebelde contagia todos os internos, em seu redor, destabilizando a rotina e despoletando a oposição da cruel e sádica enfermeira chefe. Esse confronto, numa luta constante pela liberdade, afectará não só o seu futuro mas o de todos os doentes internados no hospital. Um convite directo a conhecer as personagens e o seu mundo. Controverso, irónico e tocante.


One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman, 1975

8.25.2007

Filmes 8

Uma longa batalha contra a incerteza do destino. A vida limitada por quatro paredes em pequenas nuances, reviravoltas e histórias cruzadas. Um bater de emoções tocantes a cada batida de flamenco.


Um jovem enfermeiro (Benigno) cuida de pacientes em coma num hospital de Madrid. O hospital fica em frente a uma academia de ballet e, após ficar frequentemente à janela, observando uma aluna, apaixona-se por ela.

A bailarina sofre um acidente de carro, que a deixa em coma e é internada no seu hospital. Benigno passa a cuidar dela com uma atenção redobrada, falando sempre com ela. Movido por um misto de fé e amor crê que, de alguma forma, as suas palavras serão ouvidas.

Mais tarde, assistindo a uma peça, observa ao seu lado, um homem – escritor de meia idade (Marco) - profundamente emocionado em lágrimas. Meses depois reencontram-se no hospital pois a sua noiva toureira, é colhida numa arena ficando, também ela, em coma.

Ao contrário de Benigno, Marco quase não consegue tocar na noiva. É aí que começa uma intensa amizade entre os dois, com um conselho simples da parte do jovem enfermeiro: Fale com ela.



Habble con Ella, Pedro Almodóvar, 2002

8.24.2007

FIlmes 7

Uma história de amor em tempo de guerra. Pintada numa cor única, em tons de sépia. Uma lenta carícia sob os corpos despidos. Apaixonante.


Em plena Segunda Guerra Mundial, um paciente inglês, uma enfermeira e outros moradores falam de suas vidas. Em paralelo, passa a vida do inglês antes do acidente.
Em plena Segunda Guerra Mundial, um misterioso homem é encontrado nas areias quentes do deserto do Sahara, com queimaduras profundas no corpo, que o tornam irreconhecível. Levado para um mosteiro abandonado na Tuscania, no norte de Itália, recebe os cuidados de uma enfermeira canadiana destacada nessa região. As recordações dos dias de felicidade passados ao lado da sua amante, são a única razão para viver. Um filme de grande fulgor romântico, intriga e aventura, repleto de vida e mistério.


The English Patient, Anthony Minghella, 1996

Assíduos do shaker

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