9.04.2007

Devir animal

Àquela hora naquele lugar. Como que num passo de mágica, as pessoas encarnavam o animal escondido nos seus corpos. Já tinha assistido a muitas manifestações desse fenómeno. Num gesto. Numa feição ou reacção. Num olhar. Aqui ou acolá, neste mundo de semelhanças e eternas repetições. Mas assim. Tão notório, tão explicito. Nunca vira. Naquela combinação astral, de hora e local, misturada talvez, numa outra coordenada indecifrável, algo inacreditável tornava-se na mais pura das evidencias. Indiscutível. Irrefutável. Por breves momentos, um regresso à inocência. Onde a mais vil crueldade humana se dissipava no vento. A mais urgente das pressas estalava em cacos ao sol e um aroma adocicado, de loucura colectiva, pairava algures na folhagem. Por breves momentos, eliminavam-se distâncias e o mundo tornava-se melhor.


Inspirado num quadro de Paula Rêgo

9.02.2007

Filmes 12

Um lugar para além dos sonhos. Uma especiaria mágica no centro do universo. Um filme para além da imaginação


Baseado no livro de Frank Herbert, considerada uma das maiores obras de ficção científica de todos os tempos, apresenta-nos um fantástico mundo longínquo de ameaças, esplendor e intriga. Dune passa-se num futuro distante, no meio de um império inter-galático em expansão, onde feudos planetários são controlados por casas nobres. A história explora as complexas interacções entre política, religião, ecologia, tecnologia e emoções humanas.
O planeta Dune contem vermes gigantes que guardam o mais precioso e inestimável bem do universo - a especiaria “Melange”que permite viajar através do tempo e do espaço. Quem controlar a especiaria e os seus segredos controlará o universo.


Dune, David Lynch, 1984

9.01.2007

Filmes 11

A pantanosa loucura da guerra. A ausência de sentido, num gás sombrio de ilusões impregnando, aos poucos, a realidade.


Em plena guerra do Vietname, um oficial americano é enviado numa missão secreta até ao Camboja. Objectivo: “destruir” um enigmático coronel que, controlando uma tribo na selva remota, se encontra louco e fora de controlo.

Durante a jornada, rio acima, acompanhado por quatro tripulantes, que servem como microcosmo da força de guerra americana, tudo parece estar ao sabor da ilusão, da loucura e das sombras mais obscuras do coração humano.

Quadro fiel do horror, sensibilidade e dilema moral da guerra americana mais surrealista e obscura.

Apocalypse Now, Francis Ford Copolla, 1979

8.30.2007

Filmes 10

Uma história crivada de suspense. Uma envolvente viagem de obsessão sexual numa atmosfera quase irreal. Cenas elegantemente filmadas, ritmos controlados, riqueza de cores, imagens ousadas e surpreendentes.


Um médico, casado com uma curadora de arte vivem o casamento perfeito até que, após uma festa, ela lhe confessa ter sentido uma atracção por outro homem e que seria capaz de o deixar e à sua filha por ele. Assombrado por esta confissão o médico transforma uma fatídica noite de Inverno numa busca erótica que ameaça o seu casamento e o pode levar a envolver-se num misterioso assassínio. Um filme erótico sobre relacionamentos.


Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick, 1999

8.29.2007

Estranho cansaço

Que cansaço é este
que enche sorrateiro
os corpos duma água pesada
Absorvendo movimentos
Turvando olhares
Calmo mas violento
Afogando sonhos. Alegrias

Que cansaço é este
Que transforma almas
em esponjas atoladas
Atordoadas
Indiferentes a outras formas
Rejeitando gotas de esperança

Que cansaço é esse
Pântano assassino
Que consome o oxigénio
Em redor
Arrastando o andar
Para zonas sem pé

Algures, estagnado
Mora um cansaço
Permanecendo
Vertendo lágrimas
para não rebentar
Cansado de si mesmo



8.28.2007

Shibumi

Era uma casa antiga. Enorme para apenas uma pessoa. Mas sempre gostara de espaço. Do espaço por si só. Sem adornos ou decorações. Espaço aberto, em estado bruto. Cru. Matéria invisível, albergando um silêncio sábio e fecundo, comprimido entre as paredes despidas. Como que a querer escapar.

Tinha tido alguma dificuldade em chegar àquele ermo distante, perdido no mapa, no meio do nada. Mas, ao chegar, bastou-lhe uma volta rápida para se apaixonar e decidir ficar.
Os soalhos rangiam, corroídos pelo tempo e as espessas paredes de pedra, transmitiam uma frescura sonora, que se agarrava ao corpo, num eco sedutor. As amplas divisões vazias, sussurravam histórias, sedentas de um ouvinte mais atento. Envolvendo rapidamente o corpo estranho que ocupava parte daquele espaço sagrado, fazendo-nos sentir imediatamente esmagados por algo superior.

Tudo era fluir. Uma corrente magnética que se sentia sem se ver. O que mais o fascinou foi a paisagem, que decorava toda a casa. Inundando-a de uma luz que nunca vira. Embalando o olhar. Sobretudo a de uma divisão onde instalou apenas uma poltrona confortável. Ficando horas, embevecido, absorvendo a simplicidade das coisas, contemplando o ambiente minimalista mas ao mesmo tempo tão vasto.

Lembrava-se frequentemente da palavra japonesa de que tanto gostava – Shibumi, a verdadeira sofisticação das coisas simples – ao contemplar aquela simbiose perfeita de espaço e paisagem, numa dança frágil a perder de vista. Estava pronto para mais uma etapa.

8.27.2007

Beyond

Cada vez me interesso menos pelo que leio ou escrevo, para me interessar muito mais pelo que lhe deu origem. Escondido, algures, por de traz da folha.

8.26.2007

Filmes 9

Uma mente rebelde, colorindo espaços esvaziados. Na silenciosa sombra do índio gigante. Retracto de um mundo perturbador.


Um malandro humorado, após ser preso, finge-se louco para ir para um hospital psiquiátrico. O seu espírito rebelde contagia todos os internos, em seu redor, destabilizando a rotina e despoletando a oposição da cruel e sádica enfermeira chefe. Esse confronto, numa luta constante pela liberdade, afectará não só o seu futuro mas o de todos os doentes internados no hospital. Um convite directo a conhecer as personagens e o seu mundo. Controverso, irónico e tocante.


One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman, 1975

8.25.2007

Filmes 8

Uma longa batalha contra a incerteza do destino. A vida limitada por quatro paredes em pequenas nuances, reviravoltas e histórias cruzadas. Um bater de emoções tocantes a cada batida de flamenco.


Um jovem enfermeiro (Benigno) cuida de pacientes em coma num hospital de Madrid. O hospital fica em frente a uma academia de ballet e, após ficar frequentemente à janela, observando uma aluna, apaixona-se por ela.

A bailarina sofre um acidente de carro, que a deixa em coma e é internada no seu hospital. Benigno passa a cuidar dela com uma atenção redobrada, falando sempre com ela. Movido por um misto de fé e amor crê que, de alguma forma, as suas palavras serão ouvidas.

Mais tarde, assistindo a uma peça, observa ao seu lado, um homem – escritor de meia idade (Marco) - profundamente emocionado em lágrimas. Meses depois reencontram-se no hospital pois a sua noiva toureira, é colhida numa arena ficando, também ela, em coma.

Ao contrário de Benigno, Marco quase não consegue tocar na noiva. É aí que começa uma intensa amizade entre os dois, com um conselho simples da parte do jovem enfermeiro: Fale com ela.



Habble con Ella, Pedro Almodóvar, 2002

8.24.2007

FIlmes 7

Uma história de amor em tempo de guerra. Pintada numa cor única, em tons de sépia. Uma lenta carícia sob os corpos despidos. Apaixonante.


Em plena Segunda Guerra Mundial, um paciente inglês, uma enfermeira e outros moradores falam de suas vidas. Em paralelo, passa a vida do inglês antes do acidente.
Em plena Segunda Guerra Mundial, um misterioso homem é encontrado nas areias quentes do deserto do Sahara, com queimaduras profundas no corpo, que o tornam irreconhecível. Levado para um mosteiro abandonado na Tuscania, no norte de Itália, recebe os cuidados de uma enfermeira canadiana destacada nessa região. As recordações dos dias de felicidade passados ao lado da sua amante, são a única razão para viver. Um filme de grande fulgor romântico, intriga e aventura, repleto de vida e mistério.


The English Patient, Anthony Minghella, 1996

8.22.2007

Ao longe

Passeava pelo jardins. Descalça. Na relva rasa aparada. Pé ante pé, com a suavidade natural do cair da folha. Cabelo arranjado, silhueta terna, sobriedade de colar de pérolas.

Mas era uma fera ferida. Estampada no vermelho do seu vestido, cintado. Hasteado no verde dos campos. Circulando, sem nunca parar, como quem procura uma saída, nos labirintos espessos do arvoredo.

Avistava-a pela janela, sem que me visse. Sempre em dias cinzentos. E ali ficava, a contempla-la. Na distância. Curioso. Nunca soube o seu nome. A sua origem ou seu destino. E agora que deixara, também, de a ver. Dou por mim, às vezes, a olhar ao longe, para uma papoila do campo. Lá longe, na folhagem.

8.21.2007

Locura e outras demências

Diz-me que distância é essa
Que levas no teu olhar
Que ânsia e que pressa
Que queres alcançar

António Variações in "Sempre Ausente"


Enlouquecia aos poucos. Estava cada vez mais certo disso.
Não sabendo o porquê, limitava-se a constatar um processo irreversível.
Um comboio antigo, em andamento por entre um fumo denso. Dissipando-se em formas mágicas. Em viagem. Ganhando velocidade. Para onde? Não sabia. Mas não se importava. Nada. Há muito que este mundo enlouquecera também e se afastara de sua pessoa como um barco à deriva. Ou ele do mundo real. Também disso não tinha certezas. Quem se desligara de quem. Sabia apenas ter um encontro marcado com a loucura. Sentia o seu respirar ofegante. O seu canto de sereia. Os seus lábios molhados, numa crescente embriaguez sedutora.
Aparecia cada vez mais regularmente numa espécie de livro de imagens que se folheia dando movimento aos objectos inanimados. Abrindo portas escondidas para locais fascinantes. Estendendo mãos. Avançando ou recuando os ponteiros dos relógios que se faziam setas de infinito.
Quem o chamaria assim? Estava prestes a descobrir...

(to be continued)


8.20.2007

FIlmes 6

Da renuncia à redescoberta da vida, num fluir musical. Gota de água dissipada em pequenas ondas, num vasto lago de azul. Intenso. Envolvendo os sentidos.


Após a morte do marido e da filha, num trágico acidente de viação, uma modelo famosa decide renunciar à sua própria vida. Após uma tentativa fracassada de suicídio, volta-se a interessar pela vida ao envolver-se com uma obra inacabada do seu marido, um músico de renome internacional.

Trois Couleurs: Bleu, Krzysztof Kieslowski, 1993


8.19.2007

Filmes 5

"I believe that God made me for a purpose... (the mission), but He also made me fast, and when I run, I feel His pleasure.". Honra, empenho, sacrifício e companheirismo ao sabor dum vento envolvente.


Baseado na história verídica da participação equipa britânica, nos Jogos Olímpicos de Paris, de 1924 . O sucesso, de uma das maiores vitórias no desporto britânico trouxe glória à nação. Para dois dos seus atletas: Harold Abrahams (judeu) e Eric Liddell (o "escocês voador"), a honra a alcançar era também pessoal e o desafio profundo, advindo do âmago dos seus seres.

Chariots of Fire, Hugh Hudson, 1981


8.17.2007

Filmes 4

Uma dor de amor mantida ao longo dos séculos. Sofrida. Voraz. Sombria. Uma sombra misteriosa que não acompanha o corpo.


No século XV, um líder e guerreiro dos Cárpatos renega à Igreja quando esta se recusa a enterrar em solo sagrado a mulher amada e a condena ao inferno, por se ter suicidado ao julga-lo morto em batalha na defesa da igreja cristã na Roménia.
A busca do Conde Drácula pela reencarnação da sua amada, deambulando através dos séculos, até encontrar um advogado, na Inglaterra Vitoriana, cuja noiva é a reencarnação da sua eterna amada.


Bram Stroker Drácula, Francis Ford Coppola, 1992

8.16.2007

Conta gotas

Já não posso classificar os bens preciosos.
Tudo é precioso...
E tranquilo
Como olhos guardados nas pálpebras


Carlos Drumond de Andrade




Acordara estranha. Muito estranha. Numa espécie de dormência atenta que teimava em lhe enevoar os olhos verdes, brilhantes. Resgatando-a para um local interior. Indefinido.

Sentia pingos e um eco em redor. Uns pingos espessos, no seu movimento lento, descendente. A libertarem-se a custo, na sua cabeça. Lutando contra a gravidade. A conta gotas.

Ao caírem, num lago tranquilo, algures, no seu ser, sentia o espalhar infinito de ondas invisíveis pela pele. Fechou os olhos e chorou.

O Tejo corre no Tejo

Tu que passas por mim tão indiferente,
No teu correr vazio de sentido,
Na memória de seres lentamente,
Do mar para a nascente
És o curso do tempo já vivido.

Não, Tejo
Não és tu que em mim te vês,
- Sou eu que em ti me vejo!

Por isso, à tua beira se demora
Aquele que a saudade ainda trespassa,
Repetindo a lição, que não decora
De ser, aqui e agora,
Só um homem a olhar para o que passa.

(...)

Um voo desferido é uma gaivota
Não é o voo da tua imaginação
Gritos não são agoiros, são a lota.
Vá, não faças batota,
Deixa ficar as coisas onde estão...

(...)

Tejo desta canção, que o teu correr
Não seja o meu pretexto de saudade.
Saudades tenho, sim, mas de perder,
Sem as poder deter,
As águas vivas da realidade !

(...)


Alexandre O’Neill

8.15.2007

Filmes 3

Uma história de vida, delicada, numa subtil poesia flutuante.


Na Berlim pós-guerra, dois anjos deambulam pela cidade, invisíveis aos mortais, lendo os seus pensamentos e tentando confortar a solidão e a depressão das almas que encontram. Um dos anjos, que aparecem sempre a preto e branco - contrastando com as cores dos humanos - apaixona-se por uma trapezista, enfrentando o dilema de querer ou não tornar-se mortal.


Wings of Desire (Der Himmel ünder Berlin), Wim Wenders, 1987

Assíduos do shaker

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