7.19.2007

O piano invisível

Parece-me ouvir um piano e não há piano algum aqui. Notas soltas, lentas, nem tristes nem alegres: distraídas. Notas como passinhos de criança, à procura. Por instantes julgo que me procuram a mim até entender que não procuram ninguém. Sucedem-se umas às outras de acordo com um código misterioso, revelando um segredo que não entendo. Percebo tão pouco da vida: quase tudo se me afigura misterioso, os estalos dos móveis, a quietude dos objectos, a maneira de viver das pessoas. O que esperam, o que querem, o que desejam ainda? Certos olhares, certos sorrisos. Mesmo em grupo, a conversar, afiguram-se-me sozinhas. À noite espreito o interior das casas: sofás, quadros, uma mulher a arrumar pratos num armário numa elegância de gestos que me comove. Um sujeito que passa por mim a tilintar chaves, distraído. Automóveis estacionados ao longo do passeio, vazios com esse ar terrivelmente quieto das coisas que se mexem quando não se mexem. Uma rapariga a passear o cão com uma trela que aumenta e diminui. Dois garotos pretos a rirem-se ao longe. E o piano a teimar. As notas mais complicadas agora, mais rápidas. Não há dúvida: é um piano e está aqui comigo embora não o veja.


António Lobo Antunes

7.16.2007

Uma simples bebida

Francisco, Lisboa, 1h34 pm

Uma bebida.
Uma bebida e vários pensamentos.
Dispersos. Confusos. Imagens soltas.
Tornando-se menos esbatidas no agitar do copo
Lenta mistura de dúvidas e certezas.
Estalando gelos difíceis de quebrar.
Aquecendo sentimentos
Que se escondem. Que se reprimem.
Em golos lentos. Sapientes.
Num travo amargo e doce.
Uma bebida ajuda a pensar.


Carolina, Porto, 12h00 am

Uma bebida.
Uma bebida e recordações. Desconcertantes.
Que teimam em permanecer. Escondidas, algures.
Visitando inoportunamente. Sem aviso. De tempos a tempos.
Com um cheiro, música ou imagem.
Não necessariamente más.
Recordações até já esquecidas de se quererem esquecer.
Adormecer esse uivo numa bebida.
Abafá-lo num balão de cristal
Apagar a luz e esperar o afastar do seu respirar
Atordoá-lo no álcool mais forte.
Uma bebida ajuda a esquecer.


Mafalda, Évora, 23h02 pm

Uma bebida.
Uma bebida e um forte desejo
Para se dizer o que não se consegue
Em palavras.
Há tanto tempo acorrentadas na alma.
Num sucessivo adiar. Volátil
Evaporando vontades.
Uma bebida libertadora, de coragem
Mais uma. Gota a gota. Estúpida talvez, mas eficaz.
Uma bebida ajuda a desinibir


Gonçalo, Braga, 21h30 pm

Uma bebida
Uma bebida e um desafio.
Difícil mas superado.
Triturado no tempo
Feito passado.
Abrindo o futuro.
Um levantar de braço com um brilho especial.
De esforço e dedicação.
Saboreado agora. Esticando o momento ao limite.
Uma bebida ajuda a festejar

Tantos momentos. Tantos locais. Tantas histórias.
No masculino. No feminino.
Em discurso directo ou em voz off.
Encontros e desencontros unidos numa bebida.
As pessoas mudam as bebidas permanecem iguais...

7.15.2007

Can you read my mind ?



On the corner of main street
Just tryin' to keep it in line
You say you wanna move on and
You say I'm falling behind

Can you read my mind?
Can you read my mind?

I never really gave up on
Breakin' out of this two-star town
I got the green light
I got a little fight
I'm gonna turn this thing around

Can you read my mind?
Can you read my mind?

The good old days, the honest man
The restless heart, the Promised Land
A subtle kiss that no one sees
A broken wrist and a big trapeze

Oh well I don't mind, if you don't mind
'Cause I don't shine if you don't shine
Before you go, can you read my mind?

It’s funny how you just break down
Waiting on some sign
I pull up to the front of your driveway
With magic soaking my spine

Can you read my mind?
Can you read my mind?

The teenage queen, the loaded gun
The drop dead dream, the Chosen One
A southern drawl, the world unseen
A city wall and a trampoline

Oh well I don't mind if you don't mind
'Cause I don't shine if you don't shine
Before you jump,
Tell me what you find..
When you read my mind

Slipping in my faith until I fall
You never returned that call
Woman, open the door, don't let it sting
I wanna breathe that fire again

She said I don't mind if you don't mind
'Cause I don't shine if you don't shine
Put your back on me
Put your back on me
Put your back on me

The stars are blazing like rebel diamonds, cut out of the sun
Can you read my mind

The Killers

7.13.2007

O que sou

O que sou toda a gente é capaz de ver.
Mas o que ninguém é capaz de imaginar é até onde sou e como.


Miguel Torga

7.12.2007

Um sorriso teimoso

Uma casa
Quando a pedra é Douro
Pingando música
A nadar ao luar
Nua mas não tua

Uma noite
Quando a lua é companheira
De lentos desalentos. Revoltos
Envoltos em seda antiga
Suave cantiga

Um cansaço
Quando o gato é persa
Negro espreguiçar
De pores-do-sol
Escondidos. Teimosos

Uma lágrima
Quando a batuta. Astuta
Aponta finalmente para o futuro
E a transforma em água
Lagos de sorrisos esquecidos



Para a Rosselini se esquecer, às vezes, da Isabela

7.09.2007

Epidauro

Oiço a voz subir os últimos degraus
Oiço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha

Sophia de Mello Breyner Andersen



Epidauro era uma cidade da Grécia antiga, situada na Argólida, às margens do Mar Egeu e célebre pelo santuário de Esculápio, deus da Medicina, que atraía doentes de todo o mundo. O seu anfiteatro, um dos maiores de seu tipo e de seu tempo, possuía uma acústica perfeita para a época, reproduzindo com precisão e, principalmente, de forma audível, mesmo o som de um alfinete a cair no chão, que podia ser ouvido mesmo nas últimas bancadas.
Fundada pelos Jônicos, Epidauro foi ocupada pelos Dóricos e aliou-se a Esparta, perdendo sua importância com o desenvolvimento da cidade de Egina, na ilha de mesmo nome, tendo decaído com a conquista romana.

7.07.2007

Stop crying your heart out




Hold up... hold on... don't be scared
You'll never change what's been and gone
May your smile... Shine on... Don't be scared
Your destiny may keep you warm.

Cos all of the stars are fading away
Just try not to worry you'll see them some day
Take what you need and be on your way
And stop crying your heart out

Get up... Come on... why you scared
You'll never change what been and gone
Oasis

7.04.2007

Uma nova linguagem

Queria descobrir uma nova linguagem.
Uma linguagem de água cristalina
Pura e fresca
Sem cor nem sabor
Passado ou futuro.
Uma linguagem sem bolas de cristal
Distorções ou duplos sentidos
Ausente de movimento ou direcção
Espelho da alma com reflexos quentes do sol

Queria descobrir uma nova linguagem.
Uma linguagem dos pássaros
Alados
Sem mistérios ou adivinhas
Mensagem matemática
Como música celeste
Nota a nota no seu devido lugar
Sem falsas imagens
Explosão de cores a preto no branco

Queria descobrir uma nova linguagem.
Uma linguagem para ti. Para nós.
De luz e sintonia
Uma horta de sentidos atentos
Sem camuflagens ou metades
Pressas ou deduções.
Uma linguagem que te percorra como um rio
Desaguando no teu mar de incompreensões
Barco à vela na tempestade do teu autismo


7.02.2007

Medos

Medo da morte
Medo da vida
Medo da sorte
De ficar esquecida

Medo de viajar
Medo de arriscar
de conduzir
e parir

Medo do cão
Medo do rato
da solidão
Do assalto

Medo do futuro
Medo do escuro
Do avião
ou da grande paixão

Medo do oculto
Medo de um vulto
terrorismos
e fanatismos

Medo da altura
Medo da doença
Falta de bravura
Quebra de crença

Medo do fim do mundo
Medo fecundo
Apoderando-se sem modos
De tudo e de todos

Entre os demais
Dois a reter
Medo do próprio medo
E medo de não o ter

7.01.2007

One




One is the loneliest number
That you'll ever do
Two can be as bad as one
It's the loneliest number since the number one

No is the saddest experience
You'll ever know
Yes, it's the saddest experience
You'll ever know
Because one is the loneliest number
That'll you'll ever do
One is the loneliest number
That you'll ever know

It's just no good anymore
Since you gone away
Now I spend my time
Just making rhymes
Of Yesterday

Because one is the loneliest number
That you'll ever do
One is the loneliest number
That you'll ever know

One is the loneliest number
One is the loneliest number
One is the loneliest number
That you'll ever do
One is the loneliest number
Much much worse than two
One is a number divided by two


Aimee Mann

6.29.2007

Click

Acordou de um pesadelo profundo que teimava em não acabar. Onde cordeiros brancos passeavam nos vastos pastos das dúvidas eternas, saciando lobos famintos, sempre prontos a atacar. Afastando-os do seu olhar, para uma água tépida, sem pé, de planos quase indiferentes.

Percorrera noites sucessivas, sem dormir. Perdera-lhes a conta. Em busca do local secreto onde a lua se apagara. Um chamamento forte, desse brilho algures escondido, em mares nunca navegados, fazia-lhe festas na pele.

Nunca soube, no entanto, o que queria ao certo, e tivera tantas vezes à beira do abismo. De repente, num click sem razão aparente, como tantos desta vida, acordou num local que não era o seu. Apoderado duma mistura de felicidade e tristeza que se dissipavam agora, nítidas numa lenta dança de azeite na água.

Sentiu uma paz quente ao avistar, no alto, a lua pela janela, abraçando cansado o branco infinito da almofada. Amanhã é um novo dia.

6.28.2007

Sorriso perdido

Ganham-se mais batalhas com o sorriso do que com a espada.

William Shakespear


Hoje perdi um sorriso
Voou para longe, assustado.
Afastar vagaroso
no horizonte, pesado

Foi para parte incerta.
Ferido
Talvez escondido
De pancada tão certa

6.27.2007

A escrita

No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho
Lord Byron usava as grandes salas
Para ver a solidão espelho por espelho
E a beleza das portas quando ninguém passava

Escutava os rumores marinhos do silêncio
E o eco perdido de passos num corredor longínquo
Amava o liso brilhar do chão polido
E os tectos altos onde se enrolam as sombras
E embora se sentasse numa só cadeira
Gostava de olhar o vazio das cadeiras

Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital
Mas a escrita exige solidões e desertos
E coisas que se vêem como quem vê outra coisa

Pudemos imagina-lo sentado à sua mesa
Imaginar o alto pescoço espesso
A camisa aberta branca
O branco do papel as aranhas da escrita
E a luz da vela – como em certos quadros –
Tornando tudo atento

Sophia de Mello Breyner Andersen

6.26.2007

O limo da memória

Trovejava. De repente um relâmpago iluminou toda a sala, deixando qualquer ruído seguinte em suspenso. Ela olhou pela janela e tremeu, sentindo um arrepio de um suspiro misterioso passar-lhe imperceptivelmente pela memória. Percebeu que a janela do corredor estava entreaberta e, apesar do vento, os cortinados magicamente não mexiam. Estacou a dois milímetros e espreitou pela fresta, vendo um vulto de memória passar-lhe diante dos olhos.
Foi então que o vulto obscuro pareceu ganhar forma, como que a levitar com maior nitidez.
Materializou-se finalmente numa forma verde brilhante, a bailar ao vento. Um verde de infância, com sotaque inglês. “Ajude-me.”, dizia ele.
Era fino e escorregadio como um limo e piscava os olhos de pestanas douradas, muito rapidamente, atarantado. A cada pestanejar uma imagem formava-se na sua mente, surgindo diante dos seus olhos, imagens da sua própria vida, correndo em segundos pela sua cabeça, agora com significados que dantes não tinham.
Nem a chuva as distorcia. Nem a chuva, nem as lágrimas do vulto, que eram os écrans onde elas se espelhavam. Lágrimas e chuva misturadas em memórias, agora tão nítidas e aumentadas, como lupas do passado, que revelam tanto.
Todos somos espelhos do passado e há lágrimas que o tempo nunca apaga.


To be continued...


Em colaboração com Andrómeda

6.25.2007

Palavras supérfluas

A cada encontro um pequeno texto. Sempre um pequeno texto. Simples. Complexo. Uma prosa. Um poema. Tanto fazia. Era esse o trato. O cumprimento. A curiosidade. Um condensar de palavras escolhidas meticulosamente e o seu prolongar no silêncio escuro. Como a ecoarem, absorvidas pelos poros sequiosos. Vibrando nas peles coladas, envoltas pelas luzes da cidade adormecida, em sôfregos beijos e quentes carícias.
Na despedida do olhar de sentidos o esgotar do som, guardado no desejo.
As palavras podem ser supérfluas.


6.24.2007

Parede de cal ao sol

Parede de cal ao sol. Era essa a tua luz. Quente ofuscar de fragilidade branca. Simples mas magnética. No teu caminhar descalço, sobre conchas, existiam marés de medo e desejo, que tentavas sempre dissipar em espuma, no azul do céu. Que véu me lançaste? Espessura invisível que me sufoca em odor de chuva. Secando. Brilhando. Numa parede de cal.


6.23.2007

Irish music

Verde
Infinito
Vento
Maldito

Olhos
Fechados
Punhos
Cerrados

Braços
Abertos
Danças,
Afectos

Fogueiras
Celtas
Rochas
Atentas

E uma música
Mágica, no ar
Que tudo envolve
e devolve

6.22.2007

Bon appetite


Passar por idiota aos olhos de um imbecil é um requinte de apreciador de bons petiscos.



Georges Courteline

Assíduos do shaker

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