6.17.2007

Viver: essa arte fugaz

O Homem vive preocupado em viver muito e não em viver bem, quando afinal não depende dele viver muito mas sim viver bem.


Séneca


6.16.2007

Mistério





O mistério desliza em curvas invisíveis. Esguias e sinuosas. Traçando trajectórias nas esquinas. Réptil imóvel ao sol. Observa sem pestanejar. Ganhando formas na brisa, que se levanta, para logo desaparecer ao olhar.

O mistério é um felino camuflado de noite, caminhando em meias de lã. Tem a leveza dum brilho fosco e o pesar do infinito, oculto. Toca-nos em teias de era para se abrigar num arrepio que fica na pele.

6.15.2007

Porque não soube merecer


Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que o sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi não sei quem sou


Ramos Rosa

6.14.2007

Jealous guy





I was dreaming of the past
And my heart was beating fast
I began to lose control
I began to lose control

I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
I didn't mean to hurt you
I'm just a jealous guy

I was feeling insecure
You might not love me any more
I was shivering inside
I was shivering inside

I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
I didn't want to hurt you
I'm just a jealous guy

I was trying to catch your eyes
Thought that you were trying to hide
I was swallowing my pain
I was swallowing my pain

I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
I didn't mean to hurt you
I'm just a jealous guy



Bryan Ferry sings John Lennon

6.12.2007

Florir em verso de seda branca

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolências de veludos caros,
São como sedas brancas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos para te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre mais linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! e nunca te beijei...
E, nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Florbela Espanca

6.11.2007

Workout completed

I am addicted
«Beginning workout»
I've collected footsteps before dawn
Seen places I never knew existed
Ran to the moon and back
Being a Rabbit for the neighbourhood dogs
Obeyed the voice in my head
Let music carried me when I couldn’t
Raced against yesterday
Let the world be my witness
Measure myself in meters, kilometres, and finally, character
I plugged into a bigger propose
Let this world and came backed changed
«Workout completed»
I am addicted

anúncio Nike iPod



Saio para correr como quem foge. Corro do mundo alcançando outros. Percorro espaços no tempo e os espaços do tempo. Numa viagem de curvas sinuosas. Sem percurso. Sem destino. Percorro memórias esquecidas, alcanço lugares que já não me lembrava. Que nunca conhecera. Incríveis. Lugares inimagináveis.

Corro até aos limites, num processo de observação acelerado, onde segundos parecem séculos e segredos se desvendam na magia envolvente da música, fiel companheira.

Não corro muitos quilómetros mas percorro distâncias inimagináveis. Cansado respiro fundo. Workout completed…

6.10.2007

Crash




A vida é um desenrolar de acidentes. Sucedem-lhe em catadupa, com mais ou menos amolgadelas. Graves, inofensivos, longos ou fugazes, por mais imperceptíveis, influenciam sempre um acontecimento futuro. Apenas indefinidos no tempo ou no espaço. Num contínuo misterioso de causa ou consequência.
É muito interessante tentar prever um acidente. O seu bater de asas de borboleta e terramoto associado.

6.08.2007

Conheces todos os teus sentimentos?

Submergidos deste mundo num mar denso, olhámo-nos, por vezes, tão próximos. Na distância dum eco de búzio. Num silêncio tocante apurámos sentidos, trocámos segredos, levantámos pó de estrelas, cristalizando-os numa espécie de afectos, em sais. Frágeis, talvez. Mas intensos.

No nosso mergulho interior misturámos pedaços de céu com danças de lobos. Impacientes. Mantendo sempre o hiato de dois braços esticados, sem se tocarem. No entanto, sumo, perfume subtil e envolvente. Numa lava descendo o cume reservado do receio. Unindo, na sua passagem, pontos magnéticos. Invisíveis. Inexplicáveis.

Reservámo-nos um local desconhecido, repleto de sombras. Por inventar. Guiado por letras e sinais, construído na lentidão subtil da brisa, que chama sem se ouvir.

No silêncio submerso do nosso mundo que grita finas lâminas de inquietude nasceu uma ponte de neve. Branca ao olhar. Encurtando respostas às nossas dúvidas escorregadias.

Não tenhas medo de desvendar os murmúrios que nos chegam embrulhados, que cada um interpreta à sua maneira. Ouves?

Um bule de chá imaginário apita no vapor que podemos trocar de alma, por instantes. Sem porquês. Tenho a mão aberta pois talvez nos possamos ajudar. Conheces todos os teus sentimentos?


6.06.2007

Corpo

Se eu pudesse as minhas mãos faziam parte do teu corpo para sempre

Pedro Paixão


Os corpos encostados contra a parede. Um corpo sempre se molda a outro corpo. O corpo é um livro sagrado. Aberto, à espera de uma mão que estrangula o desejo. No esvoaçar de gemidos, entrelaçados. Nas bocas. O peso dos corpos esmaga o tempo em suor.

Trepadeiras de dedos, cabelos, sexos, lábios misturam-se na dormência desordenada de sentidos. Sem regras. Sem destino. Apenas entrega à dança dos corpos.

Os corpos deitados no chão. Um corpo sempre descansa noutro corpo, embalado na magia do quente do corpo a dissipar-se, pouco a pouco. Na lentidão do tempo que desperta.

6.05.2007

A força do destino



Se todos somos pó de estrelas do universo teremos em nós genes dum destino desenhado no carvão do tempo? Explicando coincidências e deja vus que se desenrolam do emaranhado novelo de ADN que nos liga numa teia invisível.

6.04.2007

Multas 2 Paciência 0

Detesto estar parado. Deve ser a razão para me estarem sempre a multar por estacionamento. Como que num aviso celestial. Vossa Exa. veio a este mundo com a missão de circular e observar, consequentemente aceite esta oferenda divina com muita dedicação e carinho. Deve ser a paga para a maldita curiosidade que me atormenta. Tudo se paga neste mundo, é mesmo verdade, meus caros. Por isso, toca a circular e já agora, se possível, a pé.

6.03.2007

White light


White light
White light
White light
What intentions have your screaming rays?
Calling me or moving me away?
Reveal or hide your secret message?

White light
I love your drops of silence in my skin
Questioning what paths do you hide beyond your beat of winds?

6.02.2007

Teardrop on the fire




Love, love is a verb
Love is a doing word
Fearless on my breath
Gentle impulsion
Shakes me makes me lighter
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Nine night of matter
Black flowers blossom
Fearless on my breath
Black flowers blossom
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Water is my eye
Most faithful mirror
Fearless on my breath
Teardrop on the fire of a confession
Fearless on my breath
Most faithful mirror
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Stumbling a little
Stumbling a little


Massive Attack


Na tristeza ou alegria, saudade ou projecto futuro há sempre algo de mágico no fogo duma lareira...

6.01.2007

Amora morena

A tempestade de areia parecia ter aumentado à chegada. Exaustos, da longa caminhada, tinham vencido o deserto inóspito. Um calor abrasador, de delírios dantescos, escorria pelos corpos bronzeados. Avistava-se, a custo, a entrada do templo. Imponente.

À medida que entravam um silêncio profundo entranhava-se nos ossos, protegido do exterior por espessas pedras alinhadas, corroidas pelo tempo. Os animais assustados recusaram entrar. Já a pé avançaram pequenos e observados por figuras gigantes de Deuses animais. Tudo parecia colocado a régua e esquadro, no local exacto, como se não existisse alternativa possível, na imensidão de hieróglifos espalhados pelas paredes.

Olhando em redor, abandonado pelos membros da equipa, que se concentravam num par de sarcófagos de tonalidade turquesa e dourada, presentia que o maior tesouro não estava ali. Sentia-o desde a chegada. Fechava os olhos e era como se voasse algo em seu redor. Beleza colorida em movimento, deixando um perfume indiscritível.

Abriu os olhos, de repente, com a passagem de um escaravelho que avançava lentamente, como que à sua espera. Seguiu-o, dirigindo-se para um recanto mais escuro, quase invisível ao olhar. À medida que se aproximava o aroma era cada vez mais intenso. Laivos de Sol ansiosos e uma tranquilidade de Nilo correndo para si.

Na total escuridão esticou a mão e sentiu uma folhagem alta. Invisível, de textura aveludada. Percorrendo-a numa caricia fecunda, parou num pequeno fruto carnudo. Ao arrancá-lo, trazendo-o para a luz, uma pequena amora morena surgia inocente mas sábia. Numa trajectória de astro colocou-a na boca. Ao trincá-la todo o templo estremeceu de cor. Deuses dançando aos ventos do Suão. Mil séculos de saberes ancestrais giraram num segundo. Sementes brotaram, nas margens férteis do Nilo e árvores cresceram em pássaros. Morte e nascimento de mãos entrelaçadas. Faraós e multidões de sentidos. Nunca sentidos.

Amora morena sabes-me bem. Tu tens um cheiro, que mais ninguém tem.


Inspirado numa música do Jorge Palma dedicado a uma escaravelha que se esconde sempre no escuro

5.30.2007

Aquela varanda


Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham
como veias

Sophia de Mello Breyner Andersen


Daquela varanda respiro sempre alguma imagem que me alimenta o sangue e viaja ao mais profundo de mim.

Cócega na Escócia

Uma sombra avança lentamente, tapando o verde rochoso da ampla clareira, entre escarpas e penhascos. Um vento levanta-se, suavemente, numa dança celta, em remoinho. Assobiando metais cortantes de batalha. Do alto do castelo, um lago dorme, tranquilo. Água e noite misturados num negro azul. Profundo. Interminável. Da porta da sala, entreaberta, uma lareira reflecte o ouro de um copo de malte ali esquecido. Cá fora, enrrolado numa manta xadrez, sentia algures o cavalo selvagem do tempo recuperando o fólego. Do cume daquela torre a vista alcançava um segredo sagrado sem nunca lhe tocar. Espécie de arrepiu. Esguio. Uma cócega, na Escócia.


5.29.2007

5.28.2007

Estendal musical

Posicionara as molas
Em notas soltas
Presas a um azul celeste
de valsa em grito mudo
O sol fora a sua clave
E no vento, cordas
aqueciam em vibranto
O anoitecer curvava-se
em vénia de gala
E as árvores abanavam
leques de ansiedade.
Da partitura do estendal
em pingos de chuva
Um enredo de ópera
Percorria a noite estrelada.
Há uma música invisível
Que se esconde por saber ser
a beleza mais frágil
sobre este mundo

Assíduos do shaker

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