Cortaram os trigos. AgoraA minha solidão vê-se melhor.
Sophia de Mello Breyner Andersen
Submergidos deste mundo num mar denso, olhámo-nos, por vezes, tão próximos. Na distância dum eco de búzio. Num silêncio tocante apurámos sentidos, trocámos segredos, levantámos pó de estrelas, cristalizando-os numa espécie de afectos, em sais. Frágeis, talvez. Mas intensos.
No nosso mergulho interior misturámos pedaços de céu com danças de lobos. Impacientes. Mantendo sempre o hiato de dois braços esticados, sem se tocarem. No entanto, sumo, perfume subtil e envolvente. Numa lava descendo o cume reservado do receio. Unindo, na sua passagem, pontos magnéticos. Invisíveis. Inexplicáveis.
Reservámo-nos um local desconhecido, repleto de sombras. Por inventar. Guiado por letras e sinais, construído na lentidão subtil da brisa, que chama sem se ouvir.
No silêncio submerso do nosso mundo que grita finas lâminas de inquietude nasceu uma ponte de neve. Branca ao olhar. Encurtando respostas às nossas dúvidas escorregadias.
Não tenhas medo de desvendar os murmúrios que nos chegam embrulhados, que cada um interpreta à sua maneira. Ouves?
Um bule de chá imaginário apita no vapor que podemos trocar de alma, por instantes. Sem porquês. Tenho a mão aberta pois talvez nos possamos ajudar. Conheces todos os teus sentimentos?
Detesto estar parado. Deve ser a razão para me estarem sempre a multar por estacionamento. Como que num aviso celestial. Vossa Exa. veio a este mundo com a missão de circular e observar, consequentemente aceite esta oferenda divina com muita dedicação e carinho. Deve ser a paga para a maldita curiosidade que me atormenta. Tudo se paga neste mundo, é mesmo verdade, meus caros. Por isso, toca a circular e já agora, se possível, a pé.

A tempestade de areia parecia ter aumentado à chegada. Exaustos, da longa caminhada, tinham vencido o deserto inóspito. Um calor abrasador, de delírios dantescos, escorria pelos corpos bronzeados. Avistava-se, a custo, a entrada do templo. Imponente.À medida que entravam um silêncio profundo entranhava-se nos ossos, protegido do exterior por espessas pedras alinhadas, corroidas pelo tempo. Os animais assustados recusaram entrar. Já a pé avançaram pequenos e observados por figuras gigantes de Deuses animais. Tudo parecia colocado a régua e esquadro, no local exacto, como se não existisse alternativa possível, na imensidão de hieróglifos espalhados pelas paredes.
Olhando em redor, abandonado pelos membros da equipa, que se concentravam num par de sarcófagos de tonalidade turquesa e dourada, presentia que o maior tesouro não estava ali. Sentia-o desde a chegada. Fechava os olhos e era como se voasse algo em seu redor. Beleza colorida em movimento, deixando um perfume indiscritível.
Abriu os olhos, de repente, com a passagem de um escaravelho que avançava lentamente, como que à sua espera. Seguiu-o, dirigindo-se para um recanto mais escuro, quase invisível ao olhar. À medida que se aproximava o aroma era cada vez mais intenso. Laivos de Sol ansiosos e uma tranquilidade de Nilo correndo para si.
Na total escuridão esticou a mão e sentiu uma folhagem alta. Invisível, de textura aveludada. Percorrendo-a numa caricia fecunda, parou num pequeno fruto carnudo. Ao arrancá-lo, trazendo-o para a luz, uma pequena amora morena surgia inocente mas sábia. Numa trajectória de astro colocou-a na boca. Ao trincá-la todo o templo estremeceu de cor. Deuses dançando aos ventos do Suão. Mil séculos de saberes ancestrais giraram num segundo. Sementes brotaram, nas margens férteis do Nilo e árvores cresceram em pássaros. Morte e nascimento de mãos entrelaçadas. Faraós e multidões de sentidos. Nunca sentidos.
Amora morena sabes-me bem. Tu tens um cheiro, que mais ninguém tem.
Uma sombra avança lentamente, tapando o verde rochoso da ampla clareira, entre escarpas e penhascos. Um vento levanta-se, suavemente, numa dança celta, em remoinho. Assobiando metais cortantes de batalha. Do alto do castelo, um lago dorme, tranquilo. Água e noite misturados num negro azul. Profundo. Interminável. Da porta da sala, entreaberta, uma lareira reflecte o ouro de um copo de malte ali esquecido. Cá fora, enrrolado numa manta xadrez, sentia algures o cavalo selvagem do tempo recuperando o fólego. Do cume daquela torre a vista alcançava um segredo sagrado sem nunca lhe tocar. Espécie de arrepiu. Esguio. Uma cócega, na Escócia.
Posicionara as molas
Sentado no escuro nada via em redor. Não só pela noite espessa e silenciosa mas sobretudo pela escuridão interior em que se encontrava. Sentia-se como que um prolongamento da noite, simbiose perfeita, sem forças para reagir. Apenas a brisa gelada batendo no rosto e mãos lhe lembravam que ainda ocupava espaço e possuía forma, tal a camuflagem. Como que a desaparecer, diluído no escuro, acendia um fósforo, a custo. Contrariando momentaneamente essa ausência de si. Tornando tudo atento.
Partiste com os pássaros. Inanimada pela roda da indecisão. As tuas asas eram curtas neste mundo apertado que te sufocava e sugava o ar. O teu lugar era uma banheira de mar e espuma de nuvem. Nunca foste verdadeiramente feliz nem de ninguém. Partiste com os pássaros mas ainda visitas, por vezes, certas janelas em dias de chuva.
Curioso sentimento
Que pode uma criatura senão,
Com fúria e raiva acuso o demagogo