6.08.2007

Conheces todos os teus sentimentos?

Submergidos deste mundo num mar denso, olhámo-nos, por vezes, tão próximos. Na distância dum eco de búzio. Num silêncio tocante apurámos sentidos, trocámos segredos, levantámos pó de estrelas, cristalizando-os numa espécie de afectos, em sais. Frágeis, talvez. Mas intensos.

No nosso mergulho interior misturámos pedaços de céu com danças de lobos. Impacientes. Mantendo sempre o hiato de dois braços esticados, sem se tocarem. No entanto, sumo, perfume subtil e envolvente. Numa lava descendo o cume reservado do receio. Unindo, na sua passagem, pontos magnéticos. Invisíveis. Inexplicáveis.

Reservámo-nos um local desconhecido, repleto de sombras. Por inventar. Guiado por letras e sinais, construído na lentidão subtil da brisa, que chama sem se ouvir.

No silêncio submerso do nosso mundo que grita finas lâminas de inquietude nasceu uma ponte de neve. Branca ao olhar. Encurtando respostas às nossas dúvidas escorregadias.

Não tenhas medo de desvendar os murmúrios que nos chegam embrulhados, que cada um interpreta à sua maneira. Ouves?

Um bule de chá imaginário apita no vapor que podemos trocar de alma, por instantes. Sem porquês. Tenho a mão aberta pois talvez nos possamos ajudar. Conheces todos os teus sentimentos?


6.06.2007

Corpo

Se eu pudesse as minhas mãos faziam parte do teu corpo para sempre

Pedro Paixão


Os corpos encostados contra a parede. Um corpo sempre se molda a outro corpo. O corpo é um livro sagrado. Aberto, à espera de uma mão que estrangula o desejo. No esvoaçar de gemidos, entrelaçados. Nas bocas. O peso dos corpos esmaga o tempo em suor.

Trepadeiras de dedos, cabelos, sexos, lábios misturam-se na dormência desordenada de sentidos. Sem regras. Sem destino. Apenas entrega à dança dos corpos.

Os corpos deitados no chão. Um corpo sempre descansa noutro corpo, embalado na magia do quente do corpo a dissipar-se, pouco a pouco. Na lentidão do tempo que desperta.

6.05.2007

A força do destino



Se todos somos pó de estrelas do universo teremos em nós genes dum destino desenhado no carvão do tempo? Explicando coincidências e deja vus que se desenrolam do emaranhado novelo de ADN que nos liga numa teia invisível.

6.04.2007

Multas 2 Paciência 0

Detesto estar parado. Deve ser a razão para me estarem sempre a multar por estacionamento. Como que num aviso celestial. Vossa Exa. veio a este mundo com a missão de circular e observar, consequentemente aceite esta oferenda divina com muita dedicação e carinho. Deve ser a paga para a maldita curiosidade que me atormenta. Tudo se paga neste mundo, é mesmo verdade, meus caros. Por isso, toca a circular e já agora, se possível, a pé.

6.03.2007

White light


White light
White light
White light
What intentions have your screaming rays?
Calling me or moving me away?
Reveal or hide your secret message?

White light
I love your drops of silence in my skin
Questioning what paths do you hide beyond your beat of winds?

6.02.2007

Teardrop on the fire




Love, love is a verb
Love is a doing word
Fearless on my breath
Gentle impulsion
Shakes me makes me lighter
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Nine night of matter
Black flowers blossom
Fearless on my breath
Black flowers blossom
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Water is my eye
Most faithful mirror
Fearless on my breath
Teardrop on the fire of a confession
Fearless on my breath
Most faithful mirror
Fearless on my breath

Teardrop on the fire
Fearless on my breath

Stumbling a little
Stumbling a little


Massive Attack


Na tristeza ou alegria, saudade ou projecto futuro há sempre algo de mágico no fogo duma lareira...

6.01.2007

Amora morena

A tempestade de areia parecia ter aumentado à chegada. Exaustos, da longa caminhada, tinham vencido o deserto inóspito. Um calor abrasador, de delírios dantescos, escorria pelos corpos bronzeados. Avistava-se, a custo, a entrada do templo. Imponente.

À medida que entravam um silêncio profundo entranhava-se nos ossos, protegido do exterior por espessas pedras alinhadas, corroidas pelo tempo. Os animais assustados recusaram entrar. Já a pé avançaram pequenos e observados por figuras gigantes de Deuses animais. Tudo parecia colocado a régua e esquadro, no local exacto, como se não existisse alternativa possível, na imensidão de hieróglifos espalhados pelas paredes.

Olhando em redor, abandonado pelos membros da equipa, que se concentravam num par de sarcófagos de tonalidade turquesa e dourada, presentia que o maior tesouro não estava ali. Sentia-o desde a chegada. Fechava os olhos e era como se voasse algo em seu redor. Beleza colorida em movimento, deixando um perfume indiscritível.

Abriu os olhos, de repente, com a passagem de um escaravelho que avançava lentamente, como que à sua espera. Seguiu-o, dirigindo-se para um recanto mais escuro, quase invisível ao olhar. À medida que se aproximava o aroma era cada vez mais intenso. Laivos de Sol ansiosos e uma tranquilidade de Nilo correndo para si.

Na total escuridão esticou a mão e sentiu uma folhagem alta. Invisível, de textura aveludada. Percorrendo-a numa caricia fecunda, parou num pequeno fruto carnudo. Ao arrancá-lo, trazendo-o para a luz, uma pequena amora morena surgia inocente mas sábia. Numa trajectória de astro colocou-a na boca. Ao trincá-la todo o templo estremeceu de cor. Deuses dançando aos ventos do Suão. Mil séculos de saberes ancestrais giraram num segundo. Sementes brotaram, nas margens férteis do Nilo e árvores cresceram em pássaros. Morte e nascimento de mãos entrelaçadas. Faraós e multidões de sentidos. Nunca sentidos.

Amora morena sabes-me bem. Tu tens um cheiro, que mais ninguém tem.


Inspirado numa música do Jorge Palma dedicado a uma escaravelha que se esconde sempre no escuro

5.30.2007

Aquela varanda


Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham
como veias

Sophia de Mello Breyner Andersen


Daquela varanda respiro sempre alguma imagem que me alimenta o sangue e viaja ao mais profundo de mim.

Cócega na Escócia

Uma sombra avança lentamente, tapando o verde rochoso da ampla clareira, entre escarpas e penhascos. Um vento levanta-se, suavemente, numa dança celta, em remoinho. Assobiando metais cortantes de batalha. Do alto do castelo, um lago dorme, tranquilo. Água e noite misturados num negro azul. Profundo. Interminável. Da porta da sala, entreaberta, uma lareira reflecte o ouro de um copo de malte ali esquecido. Cá fora, enrrolado numa manta xadrez, sentia algures o cavalo selvagem do tempo recuperando o fólego. Do cume daquela torre a vista alcançava um segredo sagrado sem nunca lhe tocar. Espécie de arrepiu. Esguio. Uma cócega, na Escócia.


5.29.2007

5.28.2007

Estendal musical

Posicionara as molas
Em notas soltas
Presas a um azul celeste
de valsa em grito mudo
O sol fora a sua clave
E no vento, cordas
aqueciam em vibranto
O anoitecer curvava-se
em vénia de gala
E as árvores abanavam
leques de ansiedade.
Da partitura do estendal
em pingos de chuva
Um enredo de ópera
Percorria a noite estrelada.
Há uma música invisível
Que se esconde por saber ser
a beleza mais frágil
sobre este mundo

5.27.2007

Caixa de fósforos

Sentado no escuro nada via em redor. Não só pela noite espessa e silenciosa mas sobretudo pela escuridão interior em que se encontrava. Sentia-se como que um prolongamento da noite, simbiose perfeita, sem forças para reagir. Apenas a brisa gelada batendo no rosto e mãos lhe lembravam que ainda ocupava espaço e possuía forma, tal a camuflagem. Como que a desaparecer, diluído no escuro, acendia um fósforo, a custo. Contrariando momentaneamente essa ausência de si. Tornando tudo atento.

Contemplava o seu brilho, o seu calor, trazendo-lhe memórias, ideias, texturas, lugares sem qualquer nexo ou ligação aparente. Como que a querem salvar-se do afogamento no denso crude que se apoderava de si.

Fósforo a fósforo, absorvido pela vastidão do escuro, que tudo lhe sorvia, sentiu medo. Um medo de criança perdida no escuro. Que seria de si quando lhe restasse apenas um fósforo? Noite densa. Silêncio e pauzinhos no chão.

5.25.2007

Stay



Green light, seven eleven
You stop in for a pack of cigarettes
You don’t smoke, don’t even want to
Hey now, check your change
Dressed up like a car crash
Your wheels are turning but you’re upside down
You say when he hits you, you don’t mind
Because when he hurts you, you feel alive
Hey babe, Is that what it is

Red lights, grey morning
You stumble out of a hole in the ground
A vampire or a victim
It depend’s on who’s around
You used to stay in to watch the adverts
You could lip synch to the talk shows

And if you look, you look through me
And if you talk you talk at me
And when I touch you, you don’t feel a thing

If I could stay...
Then the night would give you up
Stay... and the day would keep it’s trust
Stay... and the night would be enough

Faraway, so close
Up with the static and the radio
With satelite television
You can go anywhere
Miami, New Orleans,
London, Belfast and Berlin

And if you listen I can’t call
And if you jump, you just might fall
And if you shout I’ll only hear you

If I could stay...
Then the night would give you up
Stay... then the day would keep it’s trust
Stay... with the demons you drowned
Stay... with the spirit I found
Stay... and the night would be enough

Three o’clock in the morning
It’s quiet and there’s no one around
Just the bang and the clatter
As an angel runs to ground

Just the bang and the clatter
As an angel hits the ground


U2

5.24.2007

Partiste com os pássaros

Partiste com os pássaros. Inanimada pela roda da indecisão. As tuas asas eram curtas neste mundo apertado que te sufocava e sugava o ar. O teu lugar era uma banheira de mar e espuma de nuvem. Nunca foste verdadeiramente feliz nem de ninguém. Partiste com os pássaros mas ainda visitas, por vezes, certas janelas em dias de chuva.

5.23.2007

Curioso sentimento

Curioso sentimento
a saudade do nunca conhecido
que sussurra lento
ao ouvido

Curioso sentimento
essa saudade inexplicável
que se espalha em incenso
interior, inflamável

Curioso sentimento
Ser refém
desse invisível chamamento
de sereia d’ além

Curioso sentimento
Que leva parte de mim
Ao sabor do vento
Para local sem fim

Curioso sentimento
essa saudade de passado ou futuro
Fruto escondido mas atento
por detrás dum muro

Curioso...

5.22.2007

Emergências


Descobri hoje uma forma bastante eficaz de fugir ao trânsito caótico de Lisboa: ir atrás de um carro do INEM… Detesto pressas e até gosto muito do charme tranquilo dos carros antigos, mas hoje teve de ser.
Apesar de detestável, estou a pensar mudar a cor do carro de preto para o amarelo. Posso assim, também, distrair-me como taxista em Nova Iorque ou transformar-me em yellow submarine. Até lá, por favor, não me liguem, já tenho emergências para dar e vender.

5.21.2007

Amar

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer,
Amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até os olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas no deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o cru,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Esse o nosso destino: amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor a procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade

5.19.2007

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito de longe um povo a trouxe
E nela pôs a sua alma confiada

De longe muito longe desde o inicio
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove às sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner Andersen


Ando um pouco farto de demagogos...

Assíduos do shaker

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