5.30.2007

Aquela varanda


Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham
como veias

Sophia de Mello Breyner Andersen


Daquela varanda respiro sempre alguma imagem que me alimenta o sangue e viaja ao mais profundo de mim.

Cócega na Escócia

Uma sombra avança lentamente, tapando o verde rochoso da ampla clareira, entre escarpas e penhascos. Um vento levanta-se, suavemente, numa dança celta, em remoinho. Assobiando metais cortantes de batalha. Do alto do castelo, um lago dorme, tranquilo. Água e noite misturados num negro azul. Profundo. Interminável. Da porta da sala, entreaberta, uma lareira reflecte o ouro de um copo de malte ali esquecido. Cá fora, enrrolado numa manta xadrez, sentia algures o cavalo selvagem do tempo recuperando o fólego. Do cume daquela torre a vista alcançava um segredo sagrado sem nunca lhe tocar. Espécie de arrepiu. Esguio. Uma cócega, na Escócia.


5.29.2007

5.28.2007

Estendal musical

Posicionara as molas
Em notas soltas
Presas a um azul celeste
de valsa em grito mudo
O sol fora a sua clave
E no vento, cordas
aqueciam em vibranto
O anoitecer curvava-se
em vénia de gala
E as árvores abanavam
leques de ansiedade.
Da partitura do estendal
em pingos de chuva
Um enredo de ópera
Percorria a noite estrelada.
Há uma música invisível
Que se esconde por saber ser
a beleza mais frágil
sobre este mundo

5.27.2007

Caixa de fósforos

Sentado no escuro nada via em redor. Não só pela noite espessa e silenciosa mas sobretudo pela escuridão interior em que se encontrava. Sentia-se como que um prolongamento da noite, simbiose perfeita, sem forças para reagir. Apenas a brisa gelada batendo no rosto e mãos lhe lembravam que ainda ocupava espaço e possuía forma, tal a camuflagem. Como que a desaparecer, diluído no escuro, acendia um fósforo, a custo. Contrariando momentaneamente essa ausência de si. Tornando tudo atento.

Contemplava o seu brilho, o seu calor, trazendo-lhe memórias, ideias, texturas, lugares sem qualquer nexo ou ligação aparente. Como que a querem salvar-se do afogamento no denso crude que se apoderava de si.

Fósforo a fósforo, absorvido pela vastidão do escuro, que tudo lhe sorvia, sentiu medo. Um medo de criança perdida no escuro. Que seria de si quando lhe restasse apenas um fósforo? Noite densa. Silêncio e pauzinhos no chão.

5.25.2007

Stay



Green light, seven eleven
You stop in for a pack of cigarettes
You don’t smoke, don’t even want to
Hey now, check your change
Dressed up like a car crash
Your wheels are turning but you’re upside down
You say when he hits you, you don’t mind
Because when he hurts you, you feel alive
Hey babe, Is that what it is

Red lights, grey morning
You stumble out of a hole in the ground
A vampire or a victim
It depend’s on who’s around
You used to stay in to watch the adverts
You could lip synch to the talk shows

And if you look, you look through me
And if you talk you talk at me
And when I touch you, you don’t feel a thing

If I could stay...
Then the night would give you up
Stay... and the day would keep it’s trust
Stay... and the night would be enough

Faraway, so close
Up with the static and the radio
With satelite television
You can go anywhere
Miami, New Orleans,
London, Belfast and Berlin

And if you listen I can’t call
And if you jump, you just might fall
And if you shout I’ll only hear you

If I could stay...
Then the night would give you up
Stay... then the day would keep it’s trust
Stay... with the demons you drowned
Stay... with the spirit I found
Stay... and the night would be enough

Three o’clock in the morning
It’s quiet and there’s no one around
Just the bang and the clatter
As an angel runs to ground

Just the bang and the clatter
As an angel hits the ground


U2

5.24.2007

Partiste com os pássaros

Partiste com os pássaros. Inanimada pela roda da indecisão. As tuas asas eram curtas neste mundo apertado que te sufocava e sugava o ar. O teu lugar era uma banheira de mar e espuma de nuvem. Nunca foste verdadeiramente feliz nem de ninguém. Partiste com os pássaros mas ainda visitas, por vezes, certas janelas em dias de chuva.

5.23.2007

Curioso sentimento

Curioso sentimento
a saudade do nunca conhecido
que sussurra lento
ao ouvido

Curioso sentimento
essa saudade inexplicável
que se espalha em incenso
interior, inflamável

Curioso sentimento
Ser refém
desse invisível chamamento
de sereia d’ além

Curioso sentimento
Que leva parte de mim
Ao sabor do vento
Para local sem fim

Curioso sentimento
essa saudade de passado ou futuro
Fruto escondido mas atento
por detrás dum muro

Curioso...

5.22.2007

Emergências


Descobri hoje uma forma bastante eficaz de fugir ao trânsito caótico de Lisboa: ir atrás de um carro do INEM… Detesto pressas e até gosto muito do charme tranquilo dos carros antigos, mas hoje teve de ser.
Apesar de detestável, estou a pensar mudar a cor do carro de preto para o amarelo. Posso assim, também, distrair-me como taxista em Nova Iorque ou transformar-me em yellow submarine. Até lá, por favor, não me liguem, já tenho emergências para dar e vender.

5.21.2007

Amar

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer,
Amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até os olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas no deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o cru,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Esse o nosso destino: amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor a procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade

5.19.2007

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito de longe um povo a trouxe
E nela pôs a sua alma confiada

De longe muito longe desde o inicio
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove às sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner Andersen


Ando um pouco farto de demagogos...

5.18.2007

Tempo...

Quem me roubou o tempo que era um
Quem me roubou o tempo que era meu
O tempo todo inteiro que sorria
Onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
E onde por si mesmo o poema se escrevia


Sophia de Mello Breyner Andersen

5.15.2007

Curiosos destinos

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Carlos Drummond de Andrade


5.12.2007

Mediadora da palavra

Um rumor irrompe das nocturnas
margens. Sombras deslumbrantes.
Um fulgor que desnuda e que despoja.
Campo de água ágil. Dança

Imóvel. Uma cegueira arde
Incendiando o tempo. Pátria
áspera de delicado alento.
Soberano marulhar do inexplorável.

Unânime é a pedra. Selvagema
palavra despedaça a língua.
Um silêncio central domina e orienta
A substância primária. A palavra inicia.

Rapidez da água entre resíduos
obscuros. Talvez o diadema.
Talvez a obscura dança aérea.
O leve poder do fogo, as suas marcas

ácidas. Pulsação
dos poros. Ardor do silêncio
no nocturno centro. Fulgor do desejo.
Uma deusa de água espraia-se nas palavras.




Ramos Rosa

5.10.2007

Amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
E frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
De mãos dadas com a água
E um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
O milagre de cada dia
Escorrendo pelos telhados;
E olhos de oiro
Onde ardiam
Os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
E silêncio
À roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
Um pássaro nascia dos seus dedos
E deslumbrado penetrava nos espaços.


Eugénio de Andrade

5.08.2007

Perdoar

"O fraco nunca perdoa. O perdão é a característica do forte"


Gandi

Sabemos que amamos verdadeiramente quando conseguimos passar as mãos nas lâminas de corda da harpa do perdoar e diluir o seu som no infinito.

5.07.2007

Anjo no Mundo

Descera a esse pedaço de terra a que sempre ouvira chamar de mundo. Ele que conhecia tantos. Sempre tivera, no entanto, uma certa curiosidade por esse "Mundo" de uma só palavra. Outrora admirável mundo novo, parecia agora passar completamente despercebido aos olhares de todos os seus atarefados habitantes, presos a uma correria de insignificâncias, atolados em inutilidades.

Esse Mundo desvirtuara, por uma razão desconhecida. Transformara seus espectadores em actores desconfiados, desatentos, sempre seguindo um qualquer papel secundário, nunca mostrando seus defeitos ou sentimentos. De uma cautela extrema e certezas cómodas de preto ou branco. Sem cinzas pelo meio a atrapalhar.

Era um mundo abandonado. Assassinado aos poucos, no esquecimento e indiferença colectiva, totalmente indiferente aos sinais, à beleza dos sumarentos milagres que secavam no deserto de atenção.

O que mais o impressionou foi , ao aproximar-se, todos o acharem de uma estranheza extraterrestre, com qualquer propósito oculto, por revelar. Muito surpresos com tal intromissão nas suas redomas asfixiantes, fechadas a sete chaves.

Viera sem certezas, intenções, sem ida nem volta marcada, sem nada querer em troca. Arrastado apenas pela curiosidade de tal desprezo pela descoberta, pela negação da inocência e dos milagres inexplicáveis que também existem se não forem negados ou questionados.

Viera com tanto para revelar, para ensinar. Numa dádiva divina. Regressou desfeito por não ter espaço para existir neste Mundo, curioso, de uma só palavra.

5.05.2007

Respeito

"No fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa"

Provérbio italiano

Sou muito tolerante mas tenho dificuldade em tolerar faltas de respeito...

Assíduos do shaker

LinkWithin

Blog Widget by LinkWithin