4.16.2007

Azul céu



O que é o bem? O que é o mal?
O certo? O errado?
O justo e o injusto?
O preto e o branco?

Nada é linear e são tão ténues, por vezes, as fronteiras.
As perspectivas mudam.
Do indivíduo para o colectivo.
No tempo. No espaço.

Nunca conheci um azul que definisse o céu
Mas sempre o preferi ao cinzento da certeza absoluta

4.14.2007

Lilith

Criada ao por do sol, cedo deixaste os dias para seres lua soberana da noite. Partiste em vento indomado, deixando um Adão sem costela, sem sono, sem maçã.

Com uma Eva tão diferente de ti como seria este mundo masculino se tivesses ficado? Melhor, em igualdade, em falsos pudores, em parece que é mas não é.

Feita de sangue e saliva, teu pecado foi seres directa e implacável. Demónio sensual, coruja nocturna, serpente do fruto proibido, na tua misteriosa fatalidade acompanhas-nos sempre, discreta, no lado negro da lua.


4.13.2007

Dahdahwat

Quem és tu que espreitas escondido na folhagem, camuflado na razão, para te mostrares nas místicas formas de animal? Que te prende a este mundo? Que outros queres revelar e não te deixam? Nas tuas viagens fica sempre esse olhar e uma pequena pegada para mostrar que não foi um simples sonho.


4.12.2007

Inverno





Era tarde, a noite já dormia no sedoso lençol do silêncio, que tanto distapa aos dias agitados. Da janela não se avistava vivalma: automóveis, pessoas ou mesmo gatos pardos não figuravam no quadro de Van Gogh das estrelas reflectidas no rio que nunca dorme.
Uma metereologia de pensamentos faziam questão de o visitar, ora em lufandas quentes, ora em chuva miudinha, caindo lentamente como folhas. Das quatro estações, no entanto, era o inverno que mais sentia no sabor da sua bebida.

4.10.2007

Análise

"Aquele que se analisou a si mesmo, está deveras adiantado no conhecimento dos outros"

Denis Diderot

4.09.2007

A sua vida dava um filme

Consta que nasceu em cinema mudo, pela surpresa causada em seus pais. O que fora um simples “kiss is just a kiss” acabara por se transformar num “mulheres à beira de um ataque de nervos” entre a mãe jovem e avó preocupada, naquela pobre Polónia rural. Mas logo encontrou argumentos para ser tornar na “vida é bela” de toda a família.

Cresceu cedo, com a tragédia da guerra, que lhe contou o “era uma vez na América” e o fez ir viver com um tio. Era o terror das professoras pois fugia pela “janela indiscreta” para passar as tardes no “cinema paraíso”. Vivia numa acção permanente, sempre em suspense, não fossem as boas notas piorarem, deixando o seu tio descobrir a trama. Como não era nenhum “ilusionista” foi descoberto, claro está, ganhando um óscar para a melhor sova. No entanto, rapidamente “tudo o vento levou” e o tio foi forçado a perceber que não existiam “balas sobre a Broadway” que travassem tal “crash” pela sétima arte.

Conheceu várias “poderosas afrodites” ao longo da sua vida e passou por várias “guerras das rosas” entre “quatro casamentos e funerais”. Mas foi precisamente “o nome da rosa” que mais o fez voar “sob as asas do desejo”.

Ao longo da sua vida de “lua de mel, lua de fel” sempre soubera introduzir as legendas mais correctas para todas as cenas. Sempre fora “paciente inglês” e usara “sensibilidade e bom senso”. Sempre buscara força no “clube dos poetas mortos” e tivera na “comédia divina” o seu maior dom e desafio. “Feios, porcos e maus” nunca o impediram de lhes conquistar um sorriso.

Apreciou todos os momentos como um “Dracula” envolto em “morangos silvestres”: intensos, saborosos, cheios de “perfume”, ora actor, ora encenador, envelhecendo o “mundo a seus pés”, num desdobrar de DNA gravado em filme de 5mm.


4.08.2007

Phone call

Naquela chamada troquei a voz pela tua. Percorri as feições do teu corpo, a textura da porta fechada, o vazio do silêncio, destapado pela tua respiração.
Percorri a cama, os livros espalhados, a cadeira de palha com vista para o mar. O calor do sol a bater pela janela, o cheiro a café ao acordar. Percorri também o brilho dos nossos risos, o quadro do Munch, o cantar das cigarras pela noite dentro, a brisa na cara ao acender um cigarro.
Percorri tudo isso, no escuro da distância, tacteando território familiar como um marinheiro experiente perdido no mar.
Naquela chamada parti para sempre e percorri tudo. Apenas mais uma vez.

4.06.2007

Perfume de mulher

Mulher-Poesia
que deixa no meu corpo bocados de
poema

Mulher-Criança
que desce à minha infância
e me traz adulta

Mulher-Inteira
repartida no meu ser

Mulher-Absoluta
Fonte da minha origem


Manuela Amaral


4.05.2007

Where is my mind





Ooooooh - stop
With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
But there's nothing in it
And you'll ask yourself

Where is my mind [3x]

Way out in the water
See it swimmin'

I was swimmin' in the Carribean
Animals were hiding behind the rocks
Except the little fish
But they told me, he swears
Tryin' to talk to me to me to me

Where is my mind [3x]

Way out in the water
See it swimmin'

With your feet in the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse
If there's nothing in it
And you'll ask yourself

Where is my mind [3x]

Ooooh
With your feet in the air and your head on the ground
Ooooh
Try this trick and spin it, yeah
Ooooh
Ooooh


Pixies

4.04.2007

Ondas

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro


Sophia de Mello Breyner Andersen


4.03.2007

O buraco da lua


"Espero que a saída seja alegre e nunca mais voltar"

Frida Kalo


Quando eu morrer
vou escapar deste mundo
pelo buraco da lua
Despedindo-me a olhar o mar
como nas televisões antigas
Numa pequena bola branca
Num apagar de botão

4.02.2007

À beira mar

Que o mar se deite a teu lado
afagando as ondas do teu cabelo
sussurrando em búzio
um adeus

Que te envolva o corpo
macio de concha polida
deixando em sal
fragmentos de memória

Que te traga a paz
das profundezas recônditas
afastando a força
das algas que nos uniram

Que te arrepie a pele
só mais uma vez
num suspiro
agora seco pelo sol

Que te traga tudo isso
mas não leve
na maré
essa imagem à beira mar

3.31.2007

Until the end of the world




Havent seen you in quite a while
I was down the hold, just passing time
Last time we met was a low-lit room
We were as close together as bride and groom
We ate the food, we drank the wine
Everybody having a good time
Except you
You were talking about the end of the world

I took the money, I spiked your drink
You miss too much these days if you stop to think
You led me on with those innocent eyes
And you know I love the element of surprise
In the garden I was playing the tart
I kissed your lips and broke your heart
You, you were acting like it was the end of the world

In my dream I was drowning my sorrows
But my sorrows they learned to swim
Surrounding me, going down on me
Spilling over the brim
In waves of regret, waves of joy
I reached out for the one I tried to destroy
You, you said youd wait until the end of the world.


U2

3.30.2007

Elixir de uvas

Veio à terra em forma de semente para rapidamente germinar em forma de uva. Cedo marcou a sua presença pois, já na videira, se destacava das demais pela perfeição da forma e um brilho magnético que atraía desmesuradamente todas as formas de vida. Insectos, pássaros e até chuva e raios de sol persistiam em tentar acorrer aos seus deliciosos chamamentos. Mas tinha tanto de belo como de resistente e persistia, numa força de vida sobrenatural que brotava da sua existência.

Ao seu lado, mirrava o seu oposto. E quanto mais se olhava para a outra, bela e vigorosa, mais dó nos merecia aquela pobre amostra de vida murcha, encarquilhada e desmaiada, que nem o sol parecia querer tocar. Mas eram ambas irmãs, da mesma seiva nascidas. O que a outra tinha de belo, esta tinha de penoso, o que ela tinha de vida, este parecia acrescentar em definhamento. E quanto mais a primeira crescia e desabrochava, mais a outra parecia encolher-se e desistir. No entanto, persistia, teimosamente, num martírio teimoso.

Foi então que algo de estranho aconteceu. A sua sombria existência abandonara o lar para cair à terra numa lentidão frágil, em câmara lenta, como se o mundo parasse para observar. Ao tocar o solo, fez-se um silêncio ensurdecedor. Não se ouvia vivalma e o mundo aguardava como um animal calado mas inquieto, a antever uma catástrofe. E ali ficou, imóvel ao olhar, mas rolando lentamente, na sua forma amorfa e amassada. Numa agoniante viagem, em que os minutos pareciam horas e estas dias, percorreu a encosta até encontrar a parede do casario.


Continuação em

3.29.2007

Saudade

Do nosso sentar
apenas o frio da pedra

Dos longos passeios sem destino
apenas as curvas do carreiro

Das histórias intermináveis
apenas o brilho entre a folhagem

Do assobio bem disposto
Apenas o silêncio dos pássaros

Da paciência interminável
Apenas pedaços de memória

Do olhar ávido de criança
Apenas saudade em olhos fechados

Das histórias intermináveis
O tanto que faltou conversar

Saudades. Tantas...


Para uma pessoa especial que já não está.

3.28.2007

Dorme

Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua? É teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.



Eugénio de Andrade

3.27.2007

Desconhecido

"De um modo geral, o homem tem de andar às apalpadelas; não sabe de onde veio nem para onde vai, conhece pouco do mundo e menos ainda de si mesmo"

Johann Goethe


3.25.2007

O pior português

António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular...
António é António
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que isso tudo tem


Fernando Pessoa


O pior português é a ignorância. A total indiferença pela história, a falta de fascínio pelo conhecimento e saber. O facilitismo apático da crítica sem acção. Um amorfismo pantanoso que nos afunda lentamente, parados no tempo, num sabe tudo analfabeto.

O pior português é a falta de educação que coloca no mesmo saco génios e vulgares, sufocando tudo como erva daninha. É o ser cigarra invejando a formiga, achando tudo cair dos céus.

O pior português é sobretudo não dar valor à liberdade trocando-a por uma suposta segurança: podre, monótona, de foros e quintais.

Embaraçoso. Quase vergonhoso este Portugal secular mas de tão pequena memória, que prefere ditadores e opressores a descobridores e poetas.

3.24.2007

Deciphering the codes in you






You’re in control
Is there anywhere you want to go
You’re in control
Is there anything you want to know
The future’s for discovering
The space in which we're travelling

From the top of the first page
To the end of the last day
From the start in your own way
You just want
Somebody listening to what you say
It doesn’t matter who you are

Under the surface trying to break through
Deciphering the codes in you
I need a compass, draw me a map
I’m on the top, I can’t get back

The first line of the first page
To the end of the last place
You were looking
From the start in your own way
You just want
Somebody listening to what you say
It doesn’t matter who you are

You just want somebody listening to what you say
You just want somebody listening to what you say
It doesn’t matter who you are
It doesn’t matter who you are

Is there anybody out there who
Is lost and hurt and lonely too
Are they bleeding all your colors into one
And if you come undone
As if you’d been run through
Some catapult it fired you
You wonder if your chance will ever come
Or if you’re stuck in square one


Coldplay

3.22.2007

Vertigens de infinito


Imóvel. Estendido ao sol. Embevecido a olhar almofadas de núvens espalhadas num extenso lençol azul, por entre as torres espelhadas, respirou mais fundo, de repente. Acelerado por uma forte vertigem de infinito que o fez sentar-se, abalado. Com a sensação de não saber onde ter caído, ali naquela calma. Deitado. Imóvel.

Assíduos do shaker

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