Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro
Sophia de Mello Breyner Andersen
Do nosso sentar
Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua? É teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.
António de Oliveira Salazar
Três nomes em sequência regular...
António é António
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está tudo bem.
O que não faz sentido
É o sentido que isso tudo tem
Fernando Pessoa
O pior português é a ignorância. A total indiferença pela história, a falta de fascínio pelo conhecimento e saber. O facilitismo apático da crítica sem acção. Um amorfismo pantanoso que nos afunda lentamente, parados no tempo, num sabe tudo analfabeto.
O pior português é a falta de educação que coloca no mesmo saco génios e vulgares, sufocando tudo como erva daninha. É o ser cigarra invejando a formiga, achando tudo cair dos céus.
O pior português é sobretudo não dar valor à liberdade trocando-a por uma suposta segurança: podre, monótona, de foros e quintais.
Embaraçoso. Quase vergonhoso este Portugal secular mas de tão pequena memória, que prefere ditadores e opressores a descobridores e poetas.


Aqui me sentei quieta
Talvez o espesso manto branco
Te torne tão difícil de encontrar
Invisível à luz dos dias
Transparente, aos olhares apressados
Que tudo sabem. Que tudo julgam.
A verdade não existe
Mas pequenas mentiras
que ao derreter desvendam parte
do seu sinistro caminho
para logo se voltar a cobrir
Existe uma ponte que poucos conhecem.
Separa o óbvio do inexplicável
Dela se contempla o rio da vida
Que corre sem razão aparente
e, ao que julgam, sem lei ou batina.
Frente a frente olharam-se. Primeiro de passagem, depois sem horários, fixamente. Olhos nos olhos, percorrendo estações e apeadeiros dos seus corpos. Sentados. Imóveis. Separados por uma linha, olhavam-se e gostavam do que viam. Sem palavras, sem pudores, sem receios, sem consequências. Na segurança de uma distância, ainda que pequena, apenas um olhar. Um olhar que sussurrava, que chamava e os levava em viagem para outro local.
Do ondular o pêndulo dos dias. A luta contra o tempo num encurtar de distâncias. O tempo que passou. O tempo que resta. O tempo que há-de vir. Onde vários eus se comprimem entre a vastidão de céu e mar em diálogos silenciosos.