3.08.2007

Lídia

Não creias Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.

Sophia de Mello Breyner Andersen

3.07.2007

O jardim dos poetas

No jardim dos poetas há um brilho invisível que tudo ilumina. Há silêncio frio e emoções sonoras em raios de sol, surgindo por entre árvores seculares.
No jardim dos poetas há crianças de todas as idades e pássaros contadores de histórias. Há folhas de Outono que não caem mas se levantam para o céu.
No jardim dos poetas há aromas de frutos silvestres no salpicar dos ribeiros a correr, pelas veias. Amantes que se tocam ao luar dos dias e saudades a coaxar junto ao lago dos peixes da memória. No jardim dos poetas moram segredos antigos, guardados pelas estatuetas clássicas de anjos e demónios e há sempre um nevoeiro de mulher vestida em noite estrelada, que dá corpo e alma ao jardim dos poetas.

3.06.2007

All Good Things





Honestly what will become of me
don't like reality
It's way too clear to me
But really life is daily
We are what we don't see
Missed everything daydreaming

Flames to dust
Lovers to friends
Why do all good things come to an end
Flames to dust
Lovers to friends
Why do all good things come to an end
come to an end come to an
Why do all good things come to end?
come to an end come to an
Why do all good things come to an end?

Traveling I only stop at exits
Wondering if I'll stay
Young and restless
Living this way I stress less
I want to pull away when the dream dies
The pain sets in and I don't cry
I only feel gravity and I wonder why

[Chorus]


Well the dogs were whistling a new tune
Barking at the new moon
Hoping it would come soon so that they could
Dogs were whistling a new tune
Barking at the new moon
Hoping it would come soon so that they could
Die die die die die

Flames to dust
Lovers to friends
Why do all good things come to an end
Flames to dust
Lovers to friends
Why do all good things come to an end
come to an end come to an
Why do all good things come to end?
come to an end come to an
Why do all good things come to an end?


Nelly Furtado

3.05.2007

Presa em mim

Aqui me sinto presa. Em mim. Presa neste corpo. Fraco, apertado, que desperta o desejo dos homens e a inveja das mulheres. Este corpo belo para tantos mas duma indiferença, quase invisível, para meu ser.

Corpo que não escolhi. Que embrulhou esta alma rebelde, com um laço apertado, que estrangula e aleija esta inquieta leveza insaciável que quer a fuga a todo o momento.

Não sei que corpo lhe serviria. Penso que nenhum. Ou talvez algum ainda não inventado. Mais denso, mais inócuo, que cobrisse melhor esta luz que tenta sair por todos os meus poros.

E assim continuo. Estática. Presa. Presa no meu corpo como fera enjaulada às voltas, num lento enlouquecer. Penso se a morte calará esta voz ou se já morri e fiquei presa neste caixão.

Aqui estou. Existo. Persisto. Presa em mim…

3.04.2007

Rosas

O que achava mais interessante nas rosas não era a sua notoriedade quase vulgar. A flor das flores. A associação ao amor. A variedade de cores para todos os gostos ou ocasiões: vermelho paixão, branco pureza, amarelo liberdade, champagne admiração e até preto sofisticado.

Gostava de rosas porque era assim que sempre lhe tinham chamado. Rosa. Simplesmente Rosa, nada mais. Um nome vulgar para muitos, mas não para ela que amava as coisas simples da vida como ninguém. E, apesar de todos os espinhos que esta lhe reservara, sempre os soubera ultrapassar com um sorriso nos lábios. Vermelho Rosa, lá está.

Tivera seis filhas. Lindas, de pele rosada e aroma floral com a força da natureza. São Rosas, também, curiosidade, mas não são milagre.

Apenas Rosas, como a mãe.

3.03.2007

O caminho

Um caminho. Sempre um caminho. E opções, escolhas, direcções.
Caminhos que se cruzam, que se distanciam. Caminhos que se separam. Temporariamente. Definitivamente. “O caminho faz-se caminhando”, quantas vezes envolto num nevoeiro cerrado ou noite escura. Quantas vezes sem nos apercebermos que já tomámos outro atalho. Em direcções tão diferentes das inicialmente traçadas. Mas talvez o mais intrigante e inquietante, deste caminho, é que a mais inconsciente direcção poderá mudar totalmente o rumo da viagem. E a outra, deixada para traz, já não volta, e poderia ter sido totalmente diferente. Melhor? Pior? Quem sabe? Mas passou. Inconscientemente. Imperceptivelmente, ao sabor do acaso. Como uma gota de água que escorre por uma parede, para local incerto.
Este caminho é a vida e é isso que a torna tão interessante.

3.02.2007

Musicalidade de infância

O maestro sacode a batuta,
E a lânguida e triste música rompe…

Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal

Atirando-lhe com uma bola que tinha de um lado
O deslizar de um cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo…

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora o cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo…
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos…)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal… E a música atira com bolas
À minha infância… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos…
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com jockey amarelo…

E de um lado para o outro, da direita para a esquerda
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância…

E a música cessa como um muro que desaba,
E a bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto de um cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto

Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que desaparece pelas costas abaixo…



Fernando Pessoa

3.01.2007

Figuras de estilo

“É bom fumar. É uma metáfora do mundo.”

Pedro Paixão


Este mundo está repleto de metáforas. Com mais ou menos fumo, passam por nós ora subtilmente imperceptíveis, ora incandescentes, ferindo de tão explícitas.

2.28.2007

Desejo

O desejo é um touro bravo fitando a tórrida planície num dia de verão.
Surge do negro de sua cor, para cravar, fundo, as pontas aguçadas.
Fera indomável, persegue o vermelho que é sangue a fervilhar.

2.27.2007

Espelho

Como todas as noites preparava-se para se deitar. Escovava calmamente seus longos cabelos, sentada e já de camisa de noite, pensando no dia que agora acabava. Mas, à terceira escovagem, algo inquietou o seu olhar.

Ao tocar no espelho um arrepio intenso invadiu-a pelo indicador. Sentia a estranha sensação de estar despida do seu corpo. Havia algo familiar na imagem mas profundamente diferente, como um aviso, um alerta. Os olhos não eram os seus. Olhando mais atentamente não reconhecia as suas feições, as rugas, os sinais e, acima de tudo, uma ausência total do calor da sua pele.

Diante de si fixava-a um boneco articulado que teimava em acompanhar os seus movimentos. Uma frase, tão súbita quanto o arrepio, ecoou na sua cabeça fazendo cair a escova que se partiu em mil pedaços. Espelho meu existirá alguém mais fria do que eu?


2.26.2007

O cubo

Congelei o teu beijo na arca da minha memória, junto dos iogurtes de pedaços passados. Do gelo acumulado, fiz um cubo para, ao derreter no copo, brindar ao futuro.

2.25.2007

Gota de luar

Consta que há muito, muito tempo, num tempo onde o tempo ainda não era tempo a lua chorou. Numa noite esquecida, por uma única vez, duas lágrimas foram derramadas sobre uma folha de jardim. Uma simples folha de carvalho, envelhecida pelo Outono do tal tempo. De pele rugosa, desértica, marcada com a sina dos Homens nas suas veias.

Uma das lágrimas tinha o sal dos mares enquanto a segunda, a doce pureza do gelo. Percorrendo os canais da folha, foram pintando, um a um, todos os seus poros, num deslizar incerto até, finalmente, se unirem.

Reza a história que essa gota tem a magia dos Deuses e a folha os segredos do Universo. Nunca foi encontrada pois a Lua protegeu-se, concentrando em si os olhares dos Homens. Bela, magnética, sedutora, fatal. Tudo isso nos deu, para nunca saberemos o porquê do seu chorar.

2.24.2007

Gas panic

Para um amigo do peito respirar todo o ar do mundo e diluir esse gás que o atormenta.




What tongueless ghost of sin crept through my curtains?
Sailing on a sea of sweat on a stormy night
I think he don't got a name but I can't be certain
And in me he starts to confide

That my family don't seem so familiar
And my enemies all know my name
And if you hear me tap on your window
Better get on yer knees and pray panic is on the way

My pulse pumps out a beat to the ghost dancer
My eyes are dead and my throat's like a black hole
And if there's a god would he give another chancer
An hour to sing for his soul

Cos my family don't seem so familiar
And my enemies all know my name
And when you hear me tap on your window
Yer better get on yer knees and pray panic is on the way

Panic is on the way
Panic is on the way


Oasis

2.23.2007

Colar de Carolina

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina
O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.
E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral
nas colunas da colina.

Cecília Meireles

2.22.2007

Dúvidas

Há dias em que me questiono se realmente valerá a pena. Hoje foi um deles...


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa

2.21.2007

Babilónia

Com pátios interiores e com palmeiras
Com muros de tijolo e pequenos tanques
Com fontes com estátuas com colunas
Com deuses desenhados nas paredes de barro

Com corredores e silêncios e penumbras
Com vestidos de linho tocando a pedra pura
Com cinamomo e nardo
Com jarras donde corria azeite e vinho

Com multidões com gritos com mercados
Com esteiras claras sob os pés pintados
Com escribas com magos e adivinhos
Com prisioneiros com servos com escravos
Com lucidez feroz com amargura
Com ciência e arte
Com desprezo
Babilónia nasceu de lodo e de limo


Sophia de Mello Breyner Andersen

2.20.2007

Angel


Que anjo és tu que no teu bater de asas trazes a inquietude...




You are my angel
Come from way above
To bring me love

Her eyes
She's on the dark side
Neutralize
Every man in sight

To love you, love you, love you ...

You are my angel
Come from way above

To love you, love you, love you ...

Massive Attack

2.18.2007

Poema de amor

Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua


Sophia de Mello Breyner Andersen

2.17.2007

Paraíso

Não sei o porquê mas esta música lembra-me sempre o paraiso...





All I Need Is A Little Time
To Get Behind This Sun And Cast My Weight
All I Need Is A Peace Of This Mind
Then I Can Celebrate

All In All There's Something To Give
All In All There's Something To Do
All In All There's Something To Live
With You...

All I Need Is A Little Sign
To Get Behind This Sun And Cast This Weight Of Mine
All I Need Is The Place To Find
And There I'll Celebrate

All In All There's Something To Give
All In All There's Something To Do
All In All There's Something To Live
With You...

Air

Assíduos do shaker

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