2.08.2007

Dias úteis

Dias úteis
às vezes pretextos fúteis
p'ra encontrar felicidades
no percurso de um só dia

Dias úteis
são tão frágeis as verdades
que se rompem com a aurora
quem as não remendaria?

Dias úteis
mesmo se a dor nos fizer frente
a alegria é de repente
transparente
quem a não receberia?

mesmo por pretextos fúteis
a alegria é o que nos torna
os dias úteis.

Sérgio Godinho

2.07.2007

2.06.2007

Scarlett

Escarlate lilás
Que vento traz
essa cor
de silvestre calor?

Pintura e retrato
no teu fato.
Magenta, carmim
em pós de perlimpimpim

Violenta
Violeta
Framboesa
Camponesa

És borrão de tinta
Que finta
tempo e espaço
num só abraço

Escarlate lilás
Que vento te traz?
És rosa de vinho
que não é sangue nem espinho

2.04.2007

Japan thoughts

O tempo passara. E com ele as tuas memórias. Assentaram, como flocos de neve no telhado, derretendo, aos poucos. Aparecendo apenas, teimosamente, em pingos nos beirais. Gelando o corpo ao esbarrar numa imagem, cheiro ou lugar. Mas aos poucos também elas adormeceram, ainda que num sono frágil.

Fugíramos porque nos consumíamos. Ambos o sabíamos. E eu escolhera o silêncio como vírus aniquilador. Desde a tua partida não tivera qualquer notícia. Apenas soubera que tinhas escolhido o Oriente. Talvez pela distância. Talvez pela imagem do país do sol nascente. Estou em crer que pelos dois motivos.

Num dia de tranquilidade inofensiva, presságio de problema, eis que me deparo com um telefone de hotel e um “parece-me estar bem, não lhe queres ligar?”.

Passado duas semanas, liguei. Apetecia-me saber da luz que entrara em mim e viajava agora distante, em túnel infindável. Do outro lado do telefone, uma língua estranha, imperceptível, quase cantada, foi cortada pelo som metálico do desligar.

Talvez noutro dia, não esta noite.
Continuação ao post "Néon"

2.03.2007

Lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


Mário Cesariny

2.01.2007

O homem invisível

O homem invisível decidiu dar cabo de mim
A sua presença é um convite permanente para a depressão
Estou sempre à espera de mais algum dos seus golpes baixos
Empurra-me para labirintos donde não há evasão

Ele já sabe há muito tempo que eu não posso detê-lo
Já sabe há muito tempo que eu não tenho meios para o apanhar
Sou eu quem dá a cara
Quem desperdiça a força que ele acaba por neutralizar

O homem invisível foi uma péssima invenção
Vive à custa do meu mal e não tem nada de bom para dar
E embora, às vezes, ele faça aliciantes promessas
Nenhuma delas até hoje me conseguiu acalmar

Eu sou apenas mais um entre os seus milhões de vítimas
Muitos já tentaram dar-lhe a volta, atirá-lo ao chão
Mas toda a gente falha
São todos contaminados pela sua má vibração

O homem invisível já é velho e cheira mal
Extremamente imoral, é capaz de vender a própria mãe
Não acredita no sonho, o seu amor é o dinheiro
E vive no terror constante de perder o que tem

Talvez eu nunca mais chegue a ver-me livre do monstro
Mas enquanto ele anda aí também vai ter que me aturar
Enquanto eu tiver voz
E algum sangue nas veias ele não vai conseguir descansar


Jorge Palma

1.31.2007

Mar

Não é nenhum poema
o que vos vou dizer
Nem sei se vale a pena
tentar-vos descrever
O mar
O mar

E eu aqui fui ficando
só para O poder ver
E fui envelhecendo
sem nunca O perceber

O Mar
O Mar


Madredeus

1.29.2007

O Homem folha

O Homem folha vivia num mundo onde existiam estações. Não de comboios. Mas onde Primavera, Verão, Outono e Inverno não constavam apenas no dicionário.
Um mundo de consciências translúcidas, educação verdejante e icebergs sólidos de valores.
Um mundo de conservadores-recebedores em vez de poluidores-pagadores.
Um mundo onde se andava a pé, fazendo o caminho caminhando. Na lentidão harmoniosa do saber esperar para colher.
Um mundo com pandas, tigres da Sibéria, rinocerontes negros e com políticos mesquinhos em vias de extinção.
Um mundo onde a política agrícola comum não era sinónimo de fome e indiferença comum.
Um mundo não de minutos verdes mas de verdes anos.
Um mundo reciclado de reciclagens consumistas.
Um mundo não de petróleo viscoso mas de água cristalina.
Um mundo sem ozono, radiações ou CO2 mas com lufadas de oxigénio para as crianças.
Um mundo sem inundações, secas, fogos e chuvas ácidas mas com tsunamis de esperança num futuro melhor.
O Homem folha não existe. Mas em breve talvez não exista também Homem nem folhas. Lembremos portanto o Homem folha.

1.27.2007

Poesia matemática

Às folhas tantas
Do livro matemático
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base,
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo octogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma dos quadrados dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A almas irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar,
Uma perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
Muito engraçadinhos
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo,
Uma Unidade. Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como, aliás, em qualquer
Sociedade.

Milôr Fernandes


E ainda dizem que a matemática é uma ciência exacta...

1.26.2007

Dream land

Puxou o lençol cobrindo-se totalmente. Na total escuridão surgiu um pequeno ponto. Uma luz estranha, ténue, pequena, mas aspirando-o em espiral, como um remoinho.
Desaguou nas profundezas oceânicas em manta gigante, agitando as águas no seu bailado imponente. No seu lento avanço, como que sorvendo o tempo, um horizonte de infinito fez-se porta, para sair em voo de condor, planando sob uma paisagem deslumbrante, no silêncio dos céus. E na corrente de ar quente, baixou, a pique, em Pégaso branco a galope veloz numa encosta verde e escarpada de castelo escocês.
Acordou com um brilho ofuscante que, aos poucos, se transformou num escuro familiar. Sentia-se em paz, com umas leves dores nos braços.

1.25.2007

Mistério de Sintra

"Há quem passe pelo bosque e apenas veja lenha para a fogueira"

León Tolstoi

Bela. Sedutora. Mágica. Envolvente. Murmúrio de luz em neblina silenciosa.
Vontade de ser folha na brisa que esbate um segredo. Algo camuflado se esconde ao olhar, estando sempre presente. Como que adivinha irónica ao longo dos tempos.
Sintra é uma menina de vestido branco, sentada numa pedra fria, que me sussurra ao ouvido e fascina, sempre que nela passo.

1.24.2007

Corpo de palavras

Escreveu-a junto a si. No próprio corpo para que nunca se separassem. Foi difícil escolhe-la, entre tantas. E fê-lo com a solenidade litúrgica de algo sagrado, com uma caneta de aparo. Cedo percebeu porém que era impossível ficar por ali. Amava-as a todas. Pelo som, imagem, sabor. Pela força, poder, textura ou quente languidez.
Começou a colecciona-las, uma a uma, lentamente, junto a si.
Na angústia de saber que tal teria um limite, um fim perguntava-se a si própria – será possível apaixonarmo-nos pelas palavras?

1.22.2007

Lágrima de preta

Apeteceu-me dar um ombro e um soco. Apenas dei dois olhares: um de conforto, outro de indignação. Como é possível ainda sermos tão atrasados?

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

1.21.2007

In my secret life




I saw you this morning.
You were moving so fast.
Can’t seem to loosen my grip
On the past.
And I miss you so much.
There’s no one in sight.
And we’re still making love
In My Secret Life.

I smile when I’m angry.
I cheat and I lie.
I do what I have to do
To get by.
But I know what is wrong,
And I know what is right.
And I’d die for the truth
In My Secret Life.

Hold on, hold on, my brother.
My sister, hold on tight.
I finally got my orders.
I’ll be marching through the morning,
Marching through the night,
Moving cross the borders
Of My Secret Life.

Leonard Cohen

1.20.2007

Janela indiscreta

Abriram-se janelas em nós e a luz nunca mais foi a mesma. Ganhou uma matéria invisível, de textura magnética, que envolvia a pele numa dança de chama embevecida.
Apenas o mundo exterior mudara para tonalidades mais tépidas, de sépia. Ofuscado, confuso, atraído como insecto para a janela indiscreta.

1.19.2007

Já não é hoje ?
não é aquioje?

já foi ontem?
será amanhã?

já quandonde foi?
quandonde será?

eu queria um jàzinho que fosse
aquijá
tuoje aquijá.


Alexandre O'Neill

1.18.2007

Perdido no meio do mar

Alegre triste meigo feroz bêbedo
lúcido
no meio do mar

Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
puro
no meio do mar

Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
encontrado perdido
no meio do mar
no meio do mar

Mário Cesariny

1.17.2007

Banco de jardim

If you ever feel like something's missing
Things you never understand
Little white shadows sparkle and glisten
Part of a system, a plan

Coldplay


Sentia-se estranhamente confusa. Confusa e sem chão, como se lhe falta-se o pé. No deserto sem bússula, a precisar de um narrador para lhe enquadrar o passo seguinte. Um vazio pastoso com um ténue incenso a tristeza apoderara-se de si, vagarosamente, sem se aperceber. Ora vindo ora partindo, numa maré. Mas desta vez ficara, nítido, quase insuportável.

Era linda, duma alegria contagiante. Admirada profisionalmente e desejada aos olhares. Inteligente, lutadora, sempre conseguira o que que queria. Uma vida perfeita, de conto de fadas, agora na maldição do sentimento de falta de algo, tendo tudo.

Foi encontrada, por um menino, num banco do jardim, coberta com pétalas de jacarandás. Ao que consta a sorrir.

1.16.2007

Sereias

Vêm morrer à praia e são jovens
as sereias;
jovens como andar à chuva,
a brusca melancolia,
o lume aceso da cal;
jovens como as baladas escocesas
ou as molhadas sílabas de Junho;
e com a lua nova
vêm morrer no areal.

Eugénio de Andrade

Assíduos do shaker

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