1.09.2007

Um oceano para lavar as mãos

Se a noite não tem fundo
O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos

Edu Lobo

1.08.2007

Mecenas do nunca tentado

"Uma das grandes lições da vida é que os tolos às vezes estão certos"

Winston Churchill


Erre e volte a errar
Nunca desista
sem antes tentar.
Vibre. Persista

Sorria ao impossível
pois nunca é tarde para sonhar
Tudo é simples, exequível
Basta apenas acreditar

Troque verdades absolutas
pelas coisas mais loucas
e aos derrotistas
faça orelhas moucas

Pisque o olho ao nunca tentado
Vá em frente. Exprimente,
Seja ousado
mas nunca indiferente

E já agora, não fique apenas
neste mundo cinzento
Divirta-se como mecenas
em todo e cada momento

1.07.2007

Música

Escolhi a música para entrar em ti
invadindo os teus sentidos
numa onda a enrrolar
Vagarosa, quase muda
adiando seu rebentar violento.

Misturei-me no teu ser
num bater de asas
dissipando um calor aveludado
Arrepiu de olhos fechados
permanecendo em búzio

Há músicas que perduram

1.06.2007

O teu peito

O desenho
redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....

Imaginei-te assim á beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...

David Mourão Ferreira

1.05.2007

Corpo envolto de mar

O mar – sempre que toco
um corpo é o mar que sinto
onda a onda
contra a palma da mão.
Vésper está agora
tão próxima que já não posso
perder-me naquela infatigável
ondulação.
Eugénio de Andrade

1.04.2007

Demónios interiores

Sentei à minha mesa
os meus demónios interiores
falei-lhes com franqueza
dos meus piores temores

Tratei-os com carinho
pus jarra de flores
abri o melhor vinho
trouxe amêndoas e licores

Chamei-os pelo nome
quebrei a etiqueta
matei-lhes a sede e a fome
dei-lhes cabo da dieta

Conheci bem cada um
pus de lado toda a farsa
abri a minha alma
como se fosse um comparsa

E no fim, já bem bebidos
demos abraços fraternos
de copos bem erguidos
brindámos aos infernos
saíram de mansinho
aos primeiros alvores
fizeram-se ao caminho
sem mágoas nem rancores

Adeus, foi um prazer!
disseram a cantar
mantém a mesa posta
porque havemos de voltar


Jorge Palma

1.03.2007

Tempo

Pendurado no tempo toquei o deserto areoso do óbvio para me vir perder em mares de impossíveis. A relatividade do tempo é sobretudo o que dele fazemos.

1.02.2007

Femme

Meia lua
Desnudada
Seda, noite estrelada

Lago de fogo
Papiro de mil cores
Flores

Curvas perfeitas
Cume, Evareste
Algures em céu celeste

Mãe, criança, amante
Espumante. Femme
Je t’aime

1.01.2007

Pele


Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele


David Mourão Ferreira


12.31.2006

Ano novo

"Não existe nada completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia"

Paulo Coelho



Por mais negro e incerto que o mundo se apresente, devemos sempre olhar para um novo ano com esperança e optimismo, pois o futuro está, também, nas nossas mãos.



12.30.2006

Um telefone toca

Um telefone toca
mas ninguém nota
Toca, na escuridão
cega, da vasta multidão.

Toca invisível,
Impossível
Vindo estranhamente
soar à minha mente

Se a palavra se propaga
numa simples chamada
porque não poderei evaporar
ao atender esse chamar?

12.29.2006

Sobre um poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Hélder

12.27.2006

Blue dress

Put it on
And don't say a word
Put it on
The one that I prefer
Put it on
And stand before my eyes
Put it on
Please don't question why
Can you believe

Something so simple
Something so trivial
Makes me a happy man
Can't you understand
Say you believe
Just how easy
It is to please me

Because when you learn
You'll know what makes the world turn

Put it on
I can feel so much
Put it on
I don't need to touch
Put it on
Here before my eyes
Put it on
Because you realise
And you believe

Something so worthless
Serves a purpose
It makes me a happy man
Can't you understand
Say you believe
Just how easy
It is to please me

Because when you learn
You'll know what makes the world turn

Depeche Mode

12.25.2006

Bolo-rei e boas festas

É impressionante a actual vaga de normas, regras e conselhos que têm apenas o condão de estragar coisas simples, inofensivas ou tradições de gerações em nome de pseudo valores que algumas mentes brilhantes se lembram de inventar. Não acreditam? Querem ver?

Não me refiro ao novo verbo “amunikar” que substitui, a passos largos, o simples lavar de vegetais, nem à proibição de fumeiros artesanais devido a perigos cancerígenos mas, dada a quadra, ao tradicional bolo-rei. Ora não é que o Rei foi destituído de brinde e fava porque uma qualquer criatura não sabia comer.

Esse ser, quanto a mim, tem um nome: parvo. Há que dizê-lo com toda a frontalidade, como dizia o outro. Toda a gente sabe que um bolo-rei é redondo, tem massa, frutos secos e cristalizados, um buraco no meio e, surpresa das surpresas, um brinde e uma fava.

Se fosse uma azevia ou mesmo um tronco de Natal o senhor poderia, de facto, ser ferido de morte, agora um bolo-rei? Por favor. Talvez fosse um tipo azarado que, farto de pagar bolos rei à conta das favas, inventou esta ideia peregrina ou um Édipo que preferia o dourado ao prateado, provavelmente, alguém que não sabe comer com a calma e moderação devidas.

Conclusão, o bolo-rei perdeu a graça toda, assim como uma panóplia de coisas que não vou enunciar para não deprimir almas mais sensíveis, mas teve pelo menos a decência de servir para vos brindar não, com favas, mas com umas sinceras Boas Festas.

12.23.2006

Silêncios da fala

São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.


Maria Tereza Horta

12.22.2006

Faz-me um favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!-
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.


Mário Cesariny

12.21.2006

A minha sereia

A minha sereia ainda não canta mas encanta como ninguém.
Fala na vóz dos peixes e respira sol no olhar. Suas lágrimas são meu mar, seu sorriso a vela esticada que rasga horizontes. Sua fome é minha sede, suas mãos meu alento. Na sua pele, o calor da areia fina. No seu buzio a paz dos anjos.

Não sei o que pensa a minha sereia, mas sou naufrago, prisioneiro do seu olhar.

12.20.2006

Walk on

Walk on, walk on
What you got, they can't steal it
No, they can't even feel it
Walk on, walk on
Stay safe tonight
U2


Não sei para onde caminho mas o que me persegue é um nevoeiro sinistro, que tem tanto de mágico como vertigem. Não é deste mundo nem sei quando desaguou. Certo é que ficou.

12.19.2006

Alma alfarrabista

"Eu sou do tamanho do que vejo não do tamanho da minha altura"

Alberto Caeiro


Passeava por entre os livros. Eram água para a sua sede desértica. Uma sede de conhecimento, de novos lugares, perspectivas, vivências. Tocava-os com um carinho paternal, protegendo-os, devorando-os no pavor do tempo a escorrer como areia pelas mãos. Amava-os em cada detalhe, do toque ao cheiro, no respirar da frase que acaba, em cada ondulação de corpo feminino.
Não percebia como podia haver quem os ignorasse ou trocasse e sentia uma pena profunda de quem não sabia ler ou não os podia ter. A custo, é certo, já se conseguira desprender da sua posse, preferindo tentar replicar nos outros a brisa de sensações que sempre lhe proporcionavam. Semeáva-os, deixava-os em locais públicos, estratégicos, estudados, observando quem lhes pegava e imaginando que janelas abririam noutro corpo diferente do seu. Apenas guardara um ou dois dos quais não se conseguia desfazer pois seria o mesmo retirar parte de si e, de quando em vez, quando as saudades apertavam visitava-os nas bibliotecas ou livrairas. Apenas o incomodava os que inevitavelmente ficariam por colher, por falta de tempo, conhecimento ou atenção, nesta vida fugaz que sempre será tema de livro incabado.

12.18.2006

Love theme





Ease your lips into a velvet kiss while I enfold you
Move your hands across this promised land
The seekers guided by the pole star

Say the words
Why don’t you say the words
I have been waiting long to hear
Please fall in love with me

Drift with me upon an endless sea
We are divine in the realm of these senses
Every move has been a subterfuge
While we pretend that we really don’t care

Lose your fear we might be strangers here
But I can feel we might be one
Please fall in love with me

I hear the sound of moons falling
Surrender to this charm
I breeze across your soul darling
Deep eternity

Lost your mind
Well don’t you think it’s time
To swim away from the safety of these beaches

Trust the tides,
they know which way to flow
And don’t you long to flow so far

Moved by waves wea’ve never felt before
Till we are floating way out deep
Please fall in love with me
Please

Tim Booth


Podemos negar o amor, podemos nunca o encontrar, podemos viver por amor, mas ele nunca se pede. Simplesmente bate à porta ou sai pela janela.

Assíduos do shaker

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